Quando pensamos nos desmandos e arbitrariedades de um governo conservador e reacionário como o que está no poder no Brasil, automaticamente nos remetemos à Idade Média, uma época obscura, misógina e predominantemente masculina. Porém, apesar das imensas dificuldades enfrentadas nesse período histórico, novas pesquisas e publicações dão conta de relatos de trajetórias de figuras femininas que conseguiram estudar, trabalhar e ter destaque em diversas áreas do conhecimento, apesar do rígido controle da Igreja Católica no Ocidente.

Um dos livros que aborda esse viés é Mulheres Intelectuais na Idade Média – Entre a medicina, a história, a poesia, a dramaturgia, a filosofia, a teologia e a mística. A obra. de autoria de Marcos Roberto Nunes Costa e Rafael Ferreira Costa, está disponível para download gratuito aqui.  O livro tem cerca de 50 perfis femininos com relatos historiográficos. Dentre tantas histórias interessantes, escolhi a de Hipátia de Alexandria (370-413 d. C), uma estudiosa grega de arte, ciência e literatura É considerada a primeira mulher especialista em matemática no mundo. Também teve grande destaque na área de filosofia.

Tinha independência e autonomia por influência do pai, um grande intelectual da época que deu à filha total  acesso à Educação algo difícil na época. Manteve-se casta por convicção filosófica platônica. Nem assim escapou do controle religioso.

Por viver numa época de luta entre o paganismo e o cristianismo, Hipátia acabou sendo vítima de uma trama políticoreligiosa que a levou a um trágico fim, que teve início a partir de 412, com a ascensão de Cirilo (Patriarca de Alexandria) ao poder. Um cristão fanático, árduo defensor da Igreja e acirrado adversário daqueles que ele considerava serem hereges. Por ser uma mulher pagã, seus ideais científicos converteram-se em alvo fácil para Cirilo, que convenceu os cristãos a elegê-la como bode expiatório. Assim, em 4153 , quando ela regressava do Museu, onde lecionava, foi atacada em plena rua pelos seguidores de Cirilo, os quais, enfurecidos, arrastaram-na para o interior de uma Igreja e lá, “seu corpo foi ultrajado e espalhado por toda cidade […]. Uma multidão de homens mercenários e ferozes, que não temiam castigo divino, nem vingança humana, matou a filósofa, e assim cometeram um monstruoso e atroz ato contra a pátria. Tinha entre 60 a 65 anos de idade quando foi assassinada.”

Relatos como esse são chocantes, mas podem servir de incentivo para todas as mulheres do século 21. Não podemos permitir que a fé em uma religião possa ser imposta.

Isso não existe mais?

Pergunte para uma mulher desesperada com uma gravidez indesejada se ela não tem medo de ser trucidada por fanáticos “pela vida”, caso esses tivessem oportunidade.

Ponha-se no lugar de vítimas de estupro que têm o crime relativizado por decisões judiciais que levam em conta o teor alcóolico das mulheres abusadas.

Em meio à barbárie pós-moderna, sigamos o exemplo das intelectuais medievais, que lutaram pelo direito de ser quem quisessem, mesmo que o preço a pagar pudesse ser alto demais. É importante esse resgate histórico para mostrar a resistência feminina, mesmo em tempos dificeis,

Seguiremos resistindo!

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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