Para além da tradição importada do Halloween e das fantasias usadas alegremente por crianças (e alguns adultos) mesmo em tempos pandêmicos, o Dia das Bruxas pode nos provocar reflexões mais profundas. Entre elas, questionar o que representava a perseguição a mulheres pela suposta ligação com demônios.

                                                                    IDADE MÉDIA

A professora e escritora italiana Silvia Federici descreve no livro Mulheres e caça às bruxas – Da Idade Média aos dias atuais como essas mulheres atrapalhavam a sociedade medieval e, por isso, eram perseguidas:

“Na figura da bruxa as autoridades puniam, ao mesmo tempo, a investida contra a propriedade privada, a insubordinação social, a propagação de crenças mágicas, que pressupunham a presença de poderes que não podiam controlar, e o desvio da norma sexual que, naquele momento, colocava o comportamento sexual e a procriação sob domínio do Estado.”
 A CAÇA ÀS BRUXAS NÃO ACABOU

Na mesma obra, a autora, militante internacional dos direitos feministas, traz à tona a volta de perseguição a mulheres a partir da década de 1990 até os dias, em países da África e na Índia:

“Mudanças em leis e regras de propriedade de terras e no conceito do que pode ser considerado fonte de valor parecem também estar na raiz de um fenômeno que produziu muita miséria para as mulheres […] a volta da caça às bruxas. [..] Outros fatores são a expansão das seitas evangélicas neocalvinistas, que pregam que a pobreza é provocada por falhas pessoais ou por ações maldosas das bruxas. Contudo, observa-se que as acusações por bruxaria são mais frequentes nas áreas destinadas a projetos comerciais ou nas quais processos de privatização de terras estão em curso (como nas comunidades tribais da Índia) e quando a acusada possui algum terreno a ser confiscado. Na África, em especial, as vítimas são mulheres mais velhas que vivem de algum pedaço de terra, enquanto as acusações partem de integrantes mais jovens das comunidades ou mesmo das próprias famílias, em geral jovens sem emprego que veem as idosas como usurpadoras.”
O LIVRO

A obra tem uma belíssima edição da Boitempo (clique em cima da imagem para ver algumas páginas do livro e as belissímas ilustrações do miolo do livro). Ao procurar no site da editora, a informação é de que o livro está indisponível. Porém, existem exemplares à venda na Estante Virtual, para quem se interessar em comprar a obra.  Aqui neste link podem ser conferidos vídeos da escritora falando mais sobre o assunto.

PERSPECTIVA BRASILEIRA

Aqui no Brasil,  é importante ficarmos atentos ao fanatismo religioso infiltrado perigosamente nos governos, com tentativas de interferir nos costumes e de ver como bruxas subversivas as mulheres livres e fortes.

UNIDAS E VISÍVEIS

Termino este texto com a inspiração de um poema da escritora norte-americana Amanda Lovelace, no livro A bruxa não vai para a fogueira neste livro, um brado pela união das mulheres “fora do padrão”, as bruxas do século 21:

“as mulheres 

bem 

gordas, 

as mulheres velhas, 

as mulheres pobres, 

e as mulheres trans, 

as mulheres sapatas, 

as mulheres judaicas, 

e as mulheres negras, 

e as mulheres do islã, 

as mulheres inválidas, 

as mulheres indígenas, 

as mulheres doentes mentais, 

as mulheres doentes crônicas, 

as mulheres neurodivergentes, 

& todas as pessoas 

às margens

desta página. 

juntas & somente juntas 

iremos finalmente 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. SURGIR. 

SURGIR. 

– nenhuma de nós será deixada nos cantos escuros e empoeirados.

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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