Motociatas parecem ser o fenômeno bolsonarista de 2021. Já é a quinta vez que o presidente sem partido Jair Bolsonaro usa desse recurso: a convocação de integrantes de motoclubes para passeios exibicionistas. No último final de semana, a motociata foi realizada em Porto Alegre, cidade de onde escrevo esse texto. E, talvez pela proximidade geográfica com tamanha estupidez,  esta manifestação sobre rodas me entristeceu mais do que as outras.

Pensando de forma racional, a adesão ao ato em apoio a Bolsonaro foi ínfima, se comparada a manifestações de repúdio ao presidente. Porém, a verdade é que depois de tantas denúncias de irregularidades na condução da pandemia, parece um contrassenso que ainda existam pessoas demonstrando apoio a este governo. E por quê motociclistas estariam dispostos a isso?

O histórico do motoqueiro rebelde

Para começo de conversa, os apoiadores de Bolsonaro pertencem a associações, os chamados motoclubes. Esses grupos estabeleceram-se com mais força no Brasil em 1980 e 1990, muitas décadas depois de o motociclismo ter se consolidado nos Estados Unidos. Porém, foi a ficção a responsável por reforçar, no imaginário popular, a figura do motociclista como um rebelde em busca de liberdade e de uma vida fora dos padrões. Além disso, alguns episódios de violência também contribuíram para marginalizar o movimento. Olhando a superfície, parece não haver uma relação entre quem usa a moto como um estilo de vida e o bolsonarismo, tão imbuído de conservadorismo e falsa moral.

Masculinidade hegemônica

Mas, ao pesquisarmos o comportamento da maioria dos integrantes dos motoclubes brasileiros, passamos a entender melhor a existência das motociatas pró-Bolsonaro. No livro Isso é coisa pra macho – Masculinidades e Encontros Motociclísticos, o mestre em Antropologia Social Kleber Lopes da Silva reflete sobre os modelos conservadores presentes nos motoclubes mais tradicionais, citados em seu texto como “M.C.”:

“Estes modelos abarcam em sua essência comportamentos que ditam o conservador e o tradicional pautados em uma masculindade heteronormativa, a valorização de atributos socialmente reconhecidos como masculinos, como a racionalidade, a virilidade e mesmo a violência, são performatizados o tempo todo, base conceitual para composição dos M.C. tradicionais e para a maioria dos encontros de motociclistas. Os semblantes fechados, os braços cruzados, sempre em pé com olhares desconfiados, fazem parte dos comportamentos, principalmente, dos integrantes dos M.C. tradicionais que frequentam os encontros.” 

Bolsonarismo e Fascismo

Além disso, não podemos deixar de destacar o simbolismo fascista do uso de motos em manifestações políticas. Sem dúvida, o mais famoso ícone do conservadorismo sobre rodas é Benito Mussolini. Dentro dessa perspectiva, um livro que nos ajuda a entender esta relação é A linguagem fascista, de Carlos Piovezani e Emilio Gentile. Na obra, são comparados os discursos de Mussolini e Bolsonaro, contextualizados aos cenários políticos da Itália e do Brasil, com a devida perspectiva histórica.

 Já o livro Bolsonarismo: teoria e prática, organizado por Carlos Savio Teixeira e Geraldo Tadeu Monteiro, destaca a relação entre Bolsonaro e Donald Trump. Vale lembrar que o ex-presidente norte-americano contou com o apoio de motociclistas conservadores desde sua posse.

Motoboys antifascistas

Por fim, é importante assinalar a diferença entre os motociclistas apoiadores de Bolsonaro e os motoboys. Ao contrário de quem usa motos de luxo para passeio, os trabalhadores são, em sua maioria, contrários ao governo. Já abordamos o tema nesta coluna aqui

Para demonstrar essa diferença de alinhamento ideológico, uma ação alternativa foi realizada em Porto Alegre durante o ato pró-Bolsonaro. Motofretistas distribuíram refeições e arrecadaram cestas básicas, ajudando quem passa dificuldades durante a pandemia. Enquanto isso, o presidente transitiva pela capital gaúcha com seus apoiadores sem um objetivo específico, apenas parecendo celebrar os milhares de mortos pela covid-19.

Imagem: Isac Nóbrega/Fotos Públicas

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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