Moro, um dos pré-candidatos à presidência da enfraquecida terceira via, teve seu nome envolvido em uma fake news literária nesta semana. Na última segunda-feira, Dia Nacional do Livro Infantil, o ex-juiz postou em suas redes sociais a obra que encantou sua infância.

A citação ao livro Dendeleão foi o que bastou para acusarem Sérgio Moro de mentiroso contumaz. Afinal, de acordo com os “especialistas” da Internet, a obra, escrita pelo norte-americano Don Freeman, teria sido publicada no Brasil, em língua portuguesa, pela editora Ediouro, apenas em 1995, quando ele já teria mais de 20 anos de idade.

Mas qual foi a fonte para essa informação replicada à exaustão no Twitter?

Conforme as pesquisas que fiz nas redes sociais e no oráculo Google, a referência principal para esta data da década de 1990 foi o site Estante Virtual, de venda de livros usados. Portanto, não era uma fonte acadêmica ou editorial confiável sobre o lançamento da obra.

Reunião de pauta  

No início da noite desta terça-feira (dia 19), acionei meus colegas do Vós, antes da gravação do podcast Bendita Sois Vós. Parecia um assunto interessante de ser mencionado no episódio desta semana, já que sempre fazemos referência à política, mas levando em conta aspectos mais aprofundados das notícias. Até o momento da gravação, na noite do dia 19, tínhamos suspeitas que o livro teria sido lançado na década de 1970, porém não tínhamos uma confirmação oficial. Alguns indícios nos levavam a esse caminho, após pesquisas realizadas em grupo. A Geórgia Santos descobriu, por exemplo, que na época a Ediouro se chamava Edições de Ouro e a tradutora de Dendeleão, a escritora Stella Leonardos, havia lançado livros infantis por esta editora. Posteriormente, a Edições de Ouro uniu-se à empresa Tecnoprint, criando a Ediouro, ainda em atuação. Sendo assim, seria possível que a indicação de edições do livro fosse modificada, a partir desta mudança.  

Além disso, outros sites confiáveis, como da Academia Carioca de Letras, apontavam que o trabalho mais frequente de Stella como tradutora foi entre os anos 1960 e 1970.  Portanto, as edições da obra em questão poderiam ter simplesmente utilizado a mesma tradução, prática comum no mercado editorial. Diante de tais dúvidas, após um período de debates internos, optamos por não incluir o assunto no podcast. Afinal, se a nossa crítica era justamente a reprodução de uma informação incorreta, precisávamos ter responsabilidade.

Assim, fiquei com a missão de, no dia seguinte, acionar a assessoria de imprensa da Ediouro e aguardar esta resposta que seria destinada ao conteúdo desta coluna. Sem ter a ânsia pelo “furo” jornalístico, já que até aquele momento nenhum veículo de comunicação havia falado sobre a possibilidade de fake news envolvendo o assunto.

Fake news confirmada

Na manhã desta quarta-feira, o site Boatos.org divulgou que era falsa a informação de que Sérgio Moro teria citado um livro lançado em 1995 como se tivesse marcado a sua infância. No entanto, o site não tinha informações da parte da editora, que foi a confirmação que o Vós optou por fazer.

A confirmação da Ediouro

Segue a resposta da assessoria de imprensa da Editora Ediouro, enviada especialmente para a coluna Voos Literários:

A Ediouro contratou a obra Dendeleão, assim como a sua tradução, na década de 1970, o que nos leva a crer que a primeira edição da obra foi lançada nessa época. Em 1995, contratamos ilustrações para uma nova edição e a obra voltou a circular nesse momento. Não encontramos registros de data da primeira edição em nossos sistemas, pois trata-se de informação bem antiga.

Aproveito para deixar registrado que o autor do livro é o Don Freedman. A Stella Leonardos é a tradutora.”

Mais debates e análises conjuntas

Ao receber a resposta da Ediouro, entrei em contato, mais uma vez, com meus colegas do Vós. Ao comentar que a declaração da editora não havia sido categórica, o Igor Natusch conseguiu uma informação interessante, que ajudou na confirmação mais exata de que o assunto que circulava nas redes sociais era uma fake news. Em um arquivo da Procempa (Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre), havia referências à listagem de obras literárias de uma biblioteca local. Neste documento, a obra Dendeleão estava na quinta edição em 1995, o que já comprova que o livro não havia sido lançado naquele ano. 

Anúncio de 1973

Por fim, mas não menos importante como fonte de confirmação, está o tweet do usuário Jobson Camargo.

Ele resgatou um anúncio da Ediouro, publicado no jornal Folha de São Paulo, em dezembro de 1973 (imagem ao lado.)

A publicidade da editora incluiu Dendeleão como uma das obras sugeridas para a leitura de férias e Natal de crianças, há quase 49 anos.

 

No detalhe da imagem original, editada pelo Igor Natusch, é possível ver o nome da obra em questão, dentre outras lançadas pelo Pingos de Ouro, um selo editorial já extinto, da Ediouro.

Moro disse a verdade (ao menos dessa vez)

Sendo assim, percebemos que é perfeitamente possível que essa leitura tenha marcado a infância de Sérgio Moro, nascido em 1972. Por isso, fiz questão de citar todo o percurso sobre checagem de notícias. Pois assim, procurei salientar como pode ser irresponsável e perigoso o atropelo das redes sociais em citar como mentiroso um pré-candidato à presidência da República.

Fake news “do bem”?

Claro que seria delicioso apontar uma inverdade tão descarada em uma figura que já demonstrou não ter afinidade com a Literatura, como no episódio da entrevista com Pedro Bial, em abril de 2019.

Porém, precisamos ter o cuidado de confirmar as informações antes de sair espalhando-as por aí. Sempre é bom lembrar: não existe fake news “do bem”. Pois quando atinge o nosso lado da trincheira, nós bradamos contra as tias do zap-zap. Então, não podemos cometer os mesmos erros. 

E para quem acha que envolver um livro infantil em uma notícia falsa é algo superficial ou bobo, não nos esqueçamos da menção à obra para crianças Aparelho Sexual e Cia como parte do fantasioso kit gay. Ao não ser questionado, em rede nacional, porque estava inventando que um livro infantil era pornográfico, o então candidato Jair Bolsonaro abriu um precedente perigoso. 

* Após a publicação deste texto, recebi a informação de que a primeira edição do livro em questão foi registrada junto à Biblioteca Nacional, em 1973, pela editora Tecnoprint. A confirmação foi feita através do depósito legal (envio obrigatório de exemplar de livros publicados no Brasil) e consta no catálogo da Biblioteca Nacional.

Foto: Facebook/Reprodução

 

 

 

 

 



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Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br