Misoginia

  1. ódio ou aversão às mulheres
Fonte: Oxford Languages

A campanha eleitoral de 2022 é só mais um campo social no qual podemos observar a misoginia e o machismo cotidiano no Brasil. Até o momento, um episódio virou um símbolo misógino: os ataques de Jair Bolsonaro à jornalista Vera Magalhães durante o debate presidencial do dia 28 de agosto. Ofendido pelo comentário da jornalista sobre a conduta de desinformação e atraso na vacinação da covid-19, Bolsonaro reagiu da seguinte forma:

“Vera, eu acho que eu não podia esperar outra coisa de você. Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim. Não pode tomar partido num debate como esse. Fazer acusações mentirosas a meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro.”

Machismo recorrente

A partir daí, o tema machismo na política esquentou o debate, com Bolsonaro como a figura central de crítica, principalmente das candidatas mulheres presentes no programa, Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil).  A postura machista do atual presidente do Brasil não é uma novidade. Mas ele segue negando este fato. Em um evento com empresários em Brasília, dois dias depois do debate eleitoral, afirmou:

“Eu não ofendi a Vera Magalhães, só que ela bate em mim o tempo todo. Eu falei que ela… sonha comigo. Nada mais do que isso aí. Outra coisa, ela não fez uma pergunta, ela fez uma afirmação contra mim.”

Apesar do machismo evidente das duas declarações, o candidato pelo PL seguirá nessa narrativa de negação, que faz parte da conduta machista. Afinal, uma das formas de desmerecer uma mulher é justamente invalidar suas opiniões a respeito de um assunto. No caso, a jornalista Vera Magalhães afirma que a declaração de “dormir pensando nele” é, por si só, misógina. Além disso, para ela, a fala de Bolsonaro contribui para o machismo estrutural, ao associar o papel da mulher mesmo quando ela está exercendo seu trabalho a alguma conotação de cunho sexual.

Misoginia cotidiana

Para além das eleições, as mulheres enfrentam o machismo em suas relações cotidianas. De casos escancarados, como este de Bolsonaro, até o machismo sutil, com microagressões, inclusive no ambiente de trabalho.  Porém, para haver uma mudança de atitude na sociedade brasileira como um todo, é preciso haver uma conscientização sobre os prejuízos do machismo nas relações interpessoais.

Sendo assim, indico quatro sugestões de leitura que podem ser aconselhadas tanto para homens que queiram apoiar o feminismo quanto para mulheres que ainda não entenderam a importância da luta feminista. 

Dicas de leitura

Clube da Luta Feminista – Um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista), de Jessica Bennett

Um guia divertido e prático sobre como se defender do machismo nas relações profissionais. Um viés interessante trazido pela autora é sobre comportamentos que não são notoriamente misóginos e que podem provocar dúvidas e inseguranças nas mulheres no ambiente corporativo. Entre eles, por exemplo, o caso da revista norte-americana Newsweek. Nos anos 1960 e 1970, era uma publicação notoriamente machista, o que deixou de ser décadas depois, quando Jessica Bennett foi repórter lá.

Confira um trecho:

“Certa vez, Gail Collins, colunista do New York Times, me contou que, se o machismo em sua época era de fato acachapante, pelo menos tinha uma espécie de vantagem: era fácil identificá-lo. Quando um sujeito passava a mão na sua bunda ou te dizia que ‘na Newsweek, mulher não escreve’, sem dúvida era injusto, mas pelo menos você reconhecia na hora. Era uma discriminação flagrante – machismo de papel passado e se encaixando na definição jurídica –, e não simplesmente uma ‘sensação’. (Será que aconteceu mesmo? Estou maluca? Será que só eu vi isto?)

Hoje, reconhecer o machismo está mais difícil do que antes. Tal como as microagressões que as pessoas negras suportam todos os dias – racismo dissimulado em forma de pequenos insultos ou desdém –, o machismo de hoje em dia é insidioso, vago, politicamente correto, e até mesmo simpático. São condutas indefiníveis, imensuráveis, escamoteadas, e dificílimas de acusar que talvez não sejam necessariamente intencionais nem conscientes. Às vezes as mulheres também incorrem nelas. Nada disso torna a coisa menos nociva. Na lida cotidiana, isso significa ver um homem instintivamente se voltar para uma mulher para ditar algo numa reunião, ou vê-la ser confundida com a auxiliar de escritório quando na verdade é a chefe.”

Mulheres na Luta 150 anos em busca de liberdade, igualdade e sororidade, de Marta Breen e Jenny Jordahl

Uma HQ com a trajetória de diversas mulheres importantes para o movimento feminista. O panorama destaca batalhas históricas, como a participação na política e a luta das mulheres contra a escravidão. A edição da editora Seguinte traz um posfácio sobre o feminismo no Brasil, que enriquece ainda mais este livro, de origem norueguesa.

Mulheres no jornalismo – práticas profissionais e emancipação social, organização de Marli dos Santos e Ana Carolina Rocha Pessôa Temer 

Este livro em formato digital da Faculdade Cásper Líbero está disponível gratuitamente aos interessados em se aprofundar nas especificidades de gênero de quem exerce a profissão de jornalista.

Confira um trecho:

“Como em outros segmentos do mundo do trabalho, o jornalismo está imerso no contexto da sociedade patriarcal, que desde seu surgimento se mantem à custa de um discurso baseado na questão econômica, o qual sustenta o poder familiar e político dos homens. Embora as conquistas femininas no mundo do trabalho se justificaram em grande parte pelas necessidades de sobrevivência e pelas mudanças nas instituições seculares, como a família, ainda hoje as mulheres sofrem com relações tensas no trabalho e discriminação de gênero, conforme apontam pesquisas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) […].”

E eu não sou uma mulher, de Bell Hooks

Um dos grandes méritos deste clássico feminista é demonstrar como a luta a favor do voto feminino nos Estados Unidos excluía mulheres negras e pobres.  Nesse sentido, considero a obra fundamental dentro do contexto eleitoral brasileiro atual. Levando em conta, por exemplo, o debate presidencial mencionado neste texto, somente com candidatos brancos e apenas duas pessoas sendo do sexo feminino. O racismo, inclusive, não foi um tema abordado ao longo deste debate, que também teve a ausência de jornalistas negros como apresentadores ou fazendo questionamentos.

Imagem: Band TV/ Reprodução


 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br