Misoginia em Mulheres e poder – um manifesto

“Quais são os fundamentos culturais da misoginia na política ou no ambiente de trabalho e quais são suas formas[…]? Como e por que as definições convencionais de “poder” (ou de “sabedoria” , “perícia” e “autoridade”) que trazemos em mente excluem as mulheres? 

O livro de autoria da professora britânica Mary Beard é uma boa fonte de consulta para entender as origens históricas da misoginia. De acordo com a especialista, o ódio às mulheres continua infelizmente tendo espaço na atualidade, principalmente na política.

Realidade brasileira

Contudo, a misoginia, assim como o machismo, podem ser sutis. Como o apagamento ou a falta de protagonismo recorrente das mulheres em determinados setores da vida pública. Se pensarmos no cenário político do Brasil 2022, já sabemos alguns fatos sobre o próximo presidente da República. Afora alguma mudança muito grande no cenário atual, assumirá o cargo um homem, branco, com 50 anos de idade ou mais. Mesmo com as mulheres sendo a maioria do eleitorado em nosso país, a eleição de Dilma Rousseff à presidência, nos já distantes anos de 2010 e 2014, parece ter sido um fato isolado na política nacional.

Desigualdade recorrente

E não é apenas no cargo máximo da República brasileira que a presença feminina é desigual. No Congresso Nacional, apenas 15% das cadeiras são ocupadas por parlamentares do sexo feminino. As desculpas dos conservadores para essa desproporção gigantesca vão desde falta de interesse das mulheres por política até o mais completo silêncio sobre o tema. No entanto, para quem estiver disposto a se dar conta, os motivos são o machismo estrutural e a misoginia, que conferem uma camada de violência e agressão simbólica para as mulheres que conseguem ser eleitas.

Para piorar, o machismo faria com que a maior parte do eleitorado feminino considerasse candidatas menos preparadas para ocupar determinados cargos eletivos. Afinal, não teve um político brasileiro que há poucos anos falou que mulher era ótima apenas para saber o preço dos produtos nos supermercados? Dentro desta visão deturpada e conservadora, elementos tão domésticos da sociedade não estariam preparados para serem deputadas, senadoras e presidentes.

Golpe misógino

E por falar em presidente ou presidenta, chegamos a um dos pontos mais difíceis de abordar até dentro da esquerda brasileira. Apesar do consenso para esse grupo de que houve um golpe parlamentar, o caráter misógino do impeachment de Dilma Rousseff é muitas vezes minimizado até por integrantes do PT.

Na visão que compartilho com militantes feministas, o golpe foi orquestrado por homens que odiavam Dilma não só por seu partido político. Mas, principalmente, pela ex-presidente ser uma mulher sem os atributos de doçura, submissão e beleza padrão valorizados por machistas.

Machismo e misoginia à esquerda

Para além dos antipetistas, a misoginia na política também contamina o espectro de esquerda. Prova disso foi o comentário de Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, sobre a ausência de Dilma em um jantar. De acordo com o dirigente, Dilma não teria sido convidada ao evento, que contou com a presença do ex-presidente Lula e de Geraldo Alckmin, ex-tucano ventilado como vice do petista, por ser irrelevante politicamente. 

As declarações de Quaquá, por sua vez, geraram revolta dentro de integrantes da própria legenda, que consideraram a fala misógina e machista. Confira aqui a nota da Secretaria Nacional de Mulheres do PT.

Depois deste incidente, a reação de Quaquá, como machista “raiz” que demonstra ser, foi se dizer atacado e denunciar uma suposta tentativa de calarem sua voz de homem branco não consciente de seus privilégios. 

Para a evolução dos “esquerdomachos”

De uma maneira geral, ressalto que seria ótimo se a misoginia e o machismo fossem comportamentos recorrentes só na extrema direita. Pois daí, nós, mulheres, sofreríamos bem menos. Bastaria saber em quem os homens da nossa convivência votaram para estarmos “a salvo” da possibilidade de desdém, achincalhe ou desprezo sobre quem somos enquanto sujeitos políticos.

Coincidência ou não, Lula dias depois teve um encontro com Dilma e fez questão de postar a foto em suas redes sociais. Lula, então, não é machista? Sinceramente, considero muito improvável que um homem hetero de 76 anos não tenha, dentro de si, resquícios de machismo estrutural.  Mas, ao menos, o ex-presidente não vai a público desmerecer uma mulher, como fez o companheiro de partido. Nesse sentido, ele está anos-luz à frente de Jair Bolsonaro, que é machista (e racista e homofóbico…) 

Porém, se os homens de esquerda quiserem evoluir de verdade, precisam parar de se glorificar na comparação com bolsonaristas. Pois precisam mesmo é começarem a enxergar as próprias falhas e evoluírem, de verdade. 

Outros livros que inspiraram esse texto

Impeachment e misoginia nas redes sociais, de Rafael Maracajá Antonino – A obra investiga 

as conotações sexistas dos ataques sofridos na Internet pela então presidente Dilma Rousseff depois dos protestos de 2013. Leitura essencial para quem ainda duvida do ódio exacerbado à Dilma apenas pelo fato de ser uma mulher no comando de um país.   

O conto da aia, de Margaret Atwood – Muito já se falou sobre esse best-seller escrito nos anos 1980 e que voltou a ganhar atenção do público com uma bem-sucedida adaptação para série. Para quem teme ditaduras, é uma leitura assustadora, pois esta distopia mostra as consequências brutais para as mulheres da falta de democracia e do conservadorismo religioso. 

Imagem de capa: Arte/Canva

Imagem Dilma e Lula: Ricardo Stuckert/Instagram





 

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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