Impossível falar sobre o legado de Caio Fernando Abreu na literatura sem abordar seu hábito compulsivo de escrever cartas para amigos, familiares e pessoas do meio cultural. Era uma forma de desabafar, parabenizar outros escritores por suas obras, divagar sobre o seu processo criativo ou simplesmente expressar afeto pelos amigos que fez nas diferentes cidades e países por onde passou ao longo de sua vida.

Importante ressaltar que era uma época ainda pré-Internética, apesar do advento da informática ir avançando lentamente. Caio faleceu em 1996 e digitou seus últimos textos no Robocop, apelido carinhoso dado a um laptop que ele teve muita resistência em usar, por achar mais fácil seguir datilogrando sua querida máquina de escrever, batizada de Virginia Woolf. Hoje em dia, provavelmente Caio F. escreveria e-mails e mensagens frequentes  pelo whatsapp, porque o que importava para ele era comunicar-se.

Ítalo Moriconi, estudioso responsável pela publicação e organização do livro Cartas, lançado em 2002, considera que essa correspondência faz parte do trabalho de Caio como escritor, como comenta na introdução dessa obra:

Na medida em que o trabalho de Caio era escrever, as cartas fazem parte do mesmo movimento produtivo de que brotam suas crônicas, suas ficções, suas peças teatrais. suas resenhas e matérias jornalísticas, assim como presumivelmente seu diário, ainda não revelado ao público. Tudo produto de um mesmo processo de vida se fazendo na escrita, enunciação e enunciado condicionando-se mutuamente, escrita alimentado-se de vida, vida transcendida pelo simbólico, metáfora que universaliza.”

Em uma carta escrita à amiga Maria Lídia Magliani, Caio F. antecipa o desejo de revelar publicamente seu diagnóstico de HIV positivo.

Logo em seguida a essa carta, o escritor utiliza sua coluna no jornal O Estado de São Paulo para informar aos leitores sobre o assunto, um fato ainda considerado tabu na década de 1990. Primeira Carta Para Além dos MurosSegunda Carta Para Além dos Muros e Última Carta Para Além dos Muros são crônicas cheias de coragem e lirismo. Os três textos podem ser encontrados no livro Pequenas Epifanias, uma coletânea com crônicas incríveis do escritor.

Mas é em sua correspondência que podemos ver seu primeiro movimento nesse sentido, o de não tornar a Aids um segredo. Na carta abaixo, publicada na íntegra, Caio Fernando Abreu já demonstra a forma como encararia seu diagnóstico: sem medo, com um certo bom humor e revelando a gratidão pelo carinhos dos que o rodeavam. E com um amor à Vida renovado:     

São Paulo, 16.8.94

Magli querida:

Pois é, amiga.

Aconteceu — estou com aids — ou pelo menos sou HIV+ (o que parece + chique…), te escrevo de minha suíte no hospital Emílio Ribas, onde estou internado há uma semana… Ah, Magli, que aventura. Voltei da Europa já mal — febres, suadores, perda de peso (perdi — imagina — oito quilos), manchas no corpo — e sem um tostão. Não vou te contar todos os detalhes dolorosos dos dois últimos meses — mas meu santo é forte e mandou aquele nosso velho anjo da guarda chamado Graça Medeiros, vinda de NY porque o irmão de S. […] está terminal […] Depois de pegar o teste positivo, fiquei dois dias ótimo, maduro & sorridente. Ligando pra família e amigos, no 3o dia enlouqueci. Tive o que chamam muito finamente de “um quadro de dissociação mental”. Pronto-Socorro na bicha: acordei nu amarrado pelos pulsos numa maca de metal… Frances Farmer, Zelda Fitzgerald, Torquato Neto: por aí. Tiraram líquido da minha espinha, esquadrinharam meu cérebro com computador, furaram as veias, enfiaram canos (tenho um no peito, já estou íntimo do tripé metálico que chamo de “Callas”, em homenagem a Tom Hanks) etc. etc. Não tenho nada, só um HIV onipresente e uma erupção na pele (citomegalovírus) que cede pouco a pouco… Maria Lídia, nunca pensei ou sempre pensei: por contas e histórico infeccioso feito com o médico, tenho isso há dez anos. E pasme. Estou bem. Nunca tive medo da morte e, além disso, acho que Deus está me dando a oportunidade de determinar prioridades. E eu só quero escrever. Tenho uns quatro/cinco livros a parir ainda, chê. Surto criativo tipo Derek Jarman, Cazuza, Hervé Guibert, Cyrill Collard. E estou cercado de anjos. Minha irmã Cláudia — sempre a mais brava e bela — veio de POA. Ficou dois dias. Todos da família lidam bem com a coisa. Nair, a espantosa, não ficou nada chocada: já sabia… só ela sabia. Mas nunca duvide de mães. E amigos ótimos, visita todas as tardes, muito amor, maçãs e chocolates.

Ganhando alta aqui, mais uma semana, vou para POA. Quero ganhar forças para enfrentar Frankfurt e dois congressos na França em outubro/novembro. Não sinto nenhum rancor, nenhuma mágoa. Chorei algumas vezes porque a vida me dá pena, e é tão bonita. Passeio pelos corredores da enfermaria e vejo cenas. Figuras estarrecedoras. Saio dessa mais humano e infinitamente melhor, mais paciente — me sinto privilegiado por poder vivenciar minha própria morte com lucidez e fé. Te amo muito. […] Beije Marijô por mim (adoro escrever Marijot).

Nada disso é segredo de Estado, se alguém quiser saber, diga. Quero ajudar a tirar o véu de hipocrisia que encobre este vírus assassino. Mas creia, estou equilibrado, sereno, e às vezes até feliz.

Muito amor, seu Caio F. (finalmente um escritor positivo!)

PS: Ouço muito Maria Callas, sobretudo a ária final da Butterfly, que Augusto me deu. Difícil ouvir outra coisa. PS: Não se preocupe. Não fique triste. Tudo me parece muito lógico: Que outra morte eu poderia ter? É a minha cara! E futilidade sempre foi matéria de salvação: convenhamos que é muito moderno, muito in… Só choro às vezes porque a vida me parece bela (O sol. As cores. As coisas). Mas é de emoção, não de dor. Tá tudo certo. Love”

A coluna Voos Literários prestou, durante o mês de fevereiro, uma homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu. Foram textos que lembraram a trajetória do autor como cronista, contista e dramaturgo.

O assunto está longe de esgotar-se. Caio vive. Nas redes sociais, em eventos em sua homenagem e tendo cada vez mais leitores na nova geração.

Foto:  Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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