O Brasil atual e O Conto da Aia  guardam semelhanças assustadoras. A declaração de uma futura ministra de que “as mulheres nasceram para serem mães” é o símbolo do retrocesso que vivemos diariamente e conferimos nos noticiários.

A pedido da coluna Voos Literários, a escritora Maurem Kayna fez uma poderosa reflexão sobre o livro  da escritora canadense Margaret Atwood. O Conto da Aia também pode ser conferido em formato de série, sucesso de público e crítica. A segunda temporada estreou no segundo semestre de 2018 no Brasil.

Maurem define-se como “sempre curiosa, em geral um tanto perplexa com o mundo, permanece convicta de que a Literatura tem o poder de abastecer a Vida e mover rumos”. Para saber mais sobre a autora, acessem seu site.

Mas vamos ao texto. Boa leitura!

“Uma distopia presente”

 A diferença entre distopias e utopias não tem a ver apenas com o caráter negativo de um em oposição às expectativas positivas do outro. Tampouco com a suposta distância à frente no tempo. O mais aterrador é a diferença de probabilidade. Os fatos têm mostrado que as chances de concretização das distopias é bem maior que o das utopias, pelo menos até esse ponto da história.

Se pensarmos no tanto que há de 1984 (George Orwell), Admirável Mundo Novo (Aldoux Huxley)  e 1985 (Anthony Burgess) no nosso cotidiano, o Conto da Aia fica ainda mais assustador. Aliás, ele é tão estarrecedor não porque suscita o temor de que as situações narradas nos assolem em um futuro indefinido, mas porque muitos dos absurdos vivenciados pela protagonista e por todas as mulheres do livro já acontecem hoje em alguma medida. Ditaduras vinculadas a correntes religiosas existem, países onde mulheres não tem nenhum direito também existem, a crueldade de mulheres com outras que vivem uma condição distinta da sua também existe, e nem precisamos cruzar fronteiras para ver isso acontecendo. Se tudo no livro parecer exagerado, é bom prestar atenção a um trecho dos primeiros capítulos:

As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas.

Éramos as pessoas que não estavam nos jornais. Vivíamos nos espaços brancos não preenchidos nas margens da matéria impressa. Isso nos dava mais liberdade.

Vivíamos nas lacunas entre as matérias.

Muito provavelmente a maior parte das leitoras (e digo assim no feminino porque mesmo que os leitores homens se sensibilizem com as desventuras das mulheres da narrativa, terão dificuldade de entender o que é sentir na pele algumas das situações narradas)  enfrentará uma leitura entrecortada de pausas e angústia. O livro todo é devastador, não porque apresente um cenário sanguinário – ainda  que haja algumas cenas de violência. A fonte de agonia do leitor é mais pulsante nos trechos onde o silêncio imposto molda os movimentos e decisões das personagens.

A aia, cujo nome não saberemos porque todas as aias perderam o direito a um nome próprio para serem referidas como uma propriedade de seus comandantes, é quieta e passa pela patrulha moral que qualquer mulher em nossa sociedade enfrenta.

Evito olhar para baixo, para meu corpo, não tanto porque seja vergonhoso ou impudico mas porque não quero vê-lo. Não quero olhar para alguma coisa que me determine tão completamente.

Há um ponto da narrativa que me tocou fundo. Quando a aia recorda o momento chave em que as perdas de direito das mulheres se estabeleceu, a reação do seu parceiro é muito significativa. Ele lhe pede calma e promete cuidar dela, enquanto ela reconhece estar sendo tratada como criança, ao mesmo tempo em que se recrimina, acusando a si mesma de paranoica por sentir o desconforto que sente.

Houve passeatas, é claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. […]

Ele não se importa com isso, pensei. Não se importa nem um pouco. Talvez até goste disso. Não somos mais um do outro, não mais. Em vez disso, eu sou dele.

Os dois lampejos de esperança do livro, porém, tem a ver com o poder da amizade  e com as várias e sutis resistências à norma vigente. A força que o afeto por alguém pode nos insuflar é um alento. Seja a amizade, seja o afeto que se entrelaça no corpo por conta da atração sexual. A aia tem uma amiga indócil e deseja que ela não desista, que não se submeta, que consiga salvar a própria pele ao mesmo tempo que deseja na amiga uma bravura que não consegue localizar em si mesma.

Sob o tecido coeso da tirania, também há o bálsamo de uma rede de solidariedade, a forma mais robusta de resistir, que requer, algumas vezes, uma coragem quase.

Uma simbologia interessante do livro é que dos dezesseis capítulos, sete tem “Noite” como título. São tempos escuros esses narrados por Atwood. E depois de tanta escuridão, temos um epílogo cuja função talvez seja nos fazer suportar a história pela certeza da sucessão dos regimes, uma maneira de nos assegurar que o passar do tempo sempre desacomoda qualquer regime – para o bem e para o mal.

Quando terminei a leitura do Conto da Aia, estava em uma cidade com muitas muçulmanas e a cada uma que encontrava envolta em véus e aquilo que minha vivência ocidental só consegue nomear como aceitação, sentia recrudescer a angústia da leitura. E ao revisitar os trechos sublinhados novas perguntas e novas esperanças me invadem.

Tenho o pão suficiente de cada dia, então não perderei tempo com isso. Não é o problema principal. O problema é engoli-lo sem sufocar com ele.

 Foto: Site da autora

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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