Com a chegada do Dia das Mães, a idealização da figura materna proposta nos noticiários e na publicidade pode magoar quem não tem a mãe presente em sua vida por qualquer motivo. Essa ausência em geral é suprida por figuras femininas substitutas, que muitas vezes exercem a maternagem de forma afetuosa e dedicada. Pode ser uma avó, uma tia, uma tia-avó, uma amiga da família. O parentesco não importa. O que interessa mesmo é a importância que essa mulher exerce na vida dos órfãos (de amor ou de fato). 

MÃE É QUEM CRIA

Ao buscar uma personagem literária que representasse essas mães fora do padrão, acabei lembrando de um dos clássicos da literatura brasileira, O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Uma das mulheres mais representativas no enredo e a única que aparece nos sete volumes da série literária é Maria Valéria, uma solteirona aparentemente nada afetuosa, mas que é a grande referência materna dos sobrinhos e sobrinhos-netos. Sua irmã, Alice, morre na primeira parte da trilogia, O Continente. Os dois sobrinhos eram crianças e a Dinda, como é chamada, acolhe Rodrigo e Toríbio.

O AMOR NAS ENTRELINHAS

No trecho a seguir do segundo livro, O Retrato, Rodrigo, já adulto, retorna ao sobrado e se emociona ao rever Maria Valéria, que disfarça seu afeto pelo sobrinho:

“Ergueu os olhos e viu lá em cima no vestíbulo, ao pé do último degrau, o vulto da tia. Precipitou-se escada acima e caiu nos braços de Maria Valéria, beijando-lhe as faces, a testa, as mãos, enquanto ela lhe retribuía esses carinhos apenas com seus beijos secos e rápidos.

— Então não está contente com a minha chegada, Dinda? — perguntou ele, quando sentiu que podia falar sem o perigo de romper o choro.

— Quem foi que disse que não estou? — Com as mãos ossudas tomou-lhe do queixo, olhou-o nos olhos demoradamente e perguntou: — Que é isso na vista?

— Decerto foi a poeira da estrada…”

Quando chegamos em O Arquipélago, percebemos a importância estrutural da personagem dentro da narrativa, ao ser ela a responsável por fornecer material para o romance que o sobrinho-neto Floriano escreverá sobre os 200 anos de história do Rio Grande do Sul. A Dinda naquele momento é vista como um farol:

Quando a velha Maria Valéria anda pela casa nas suas rondas noturnas, com uma vela acesa na mão, vejo nela um farol. Estou certo de que a luz dessa vela poderá me alumiar alguns dos caminhos que ficaram pra trás no tempo. “

LINHAGEM DA PERSONAGEM

Dentro da genealogia da trilogia, Maria Valéria é sobrinha-neta de Bibiana e torna-se a última matriarca da família Terra Cambará. Apesar disso, seu nome não é tão conhecido do grande público como sua tia-avó ou Ana Terra, a primeira mãe do enredo.

VOOS LITERÁRIOS ENTREVISTA

Pensando nas razões que levaram à invisibilidade dessa personagem que é uma mãe fora do padrão, conversamos com a escritora e pesquisadora Lélia Almeida, que em 1992 elaborou uma dissertação de mestrado sobre Maria Valéria para a pós-graduação da Letras da UFRGS.

 VL:  Como surgiu a ideia de fazer a pesquisa a respeito da personagem Maria Valéria?

LÉLIA: Foi durante uma disciplina sobre as personagens femininas de Machado de Assis, ministrada pelo professor Flávio Loureiro Chaves, um dos especialistas na obra de Erico Verissimo. Ele tornou-se o orientador do meu trabalho, no qual observei a importância de Maria Valéria, que fugia da representação tradicional das personagens femininas: as mães, que são boas, e as putas, que são más. A solteirona criada por Erico Verissimo está mais ligada às Deusas Virgens, que são figuras mitológicas que não se submetem ao poder do patriarcado e não se casam. Na minha pesquisa, associo Maria Valéria ao arquétipo de Héstia, que cuida do fogo da casa. Lembrando que na época não existiam pesquisas publicadas sobre as personagens femininas de O Tempo e o Vento e muito menos estudos de gênero. Mesmo sendo uma personagem escrita por um homem e tendo o hábito de mimar muito os personagens masculinos, considero que Maria Valéria demonstra um grande senso de realidade sobre as dificuldades femininas enfrentadas na época em que se passa a história.

VL: A personagem Maria Valéria, de O Tempo e o Vento, pode ser classificada como uma mãe fora das padrões, apesar de não ser chamada de mãe pelos sobrinhos e sobrinhos-netos?

LÉLIA: A personagem, é de certa forma, uma espécie de mãe de todos na história, mesmo não tendo características estereotipadas ligadas ao feminino, como a docilidade e o afeto. Maria Valéria tem atributos mais associados ao masculino: austeridade, autoridade, ausência de vaidade ao vestir-se, etc. Admiro o humor sarcástico da personagem e seu hábito de citar ditos populares.

VL: Qual a importância da personagem Maria Valéria dentro da narrativa da trilogia?

LÉLIA: Além de aparecer em todos os volumes da trilogia, considero a personagem importante por romper a forma tradicional das mulheres se comportarem dentro do enredo de O Tempo e o Vento. Mesmo nos dias atuais, a feminilidade está associada à maternidade e Maria Valéria demonstra ter valor mesmo não sendo mãe.  

(A entrevista com a escritora Lélia Almeida continua na próxima coluna, abordando feminismo e a importância da leitura de obras escritas por mulheres)

 A ideia desse texto surgiu para homenagear minha tia-avó Marina, uma espécie de mãe fora dos padrões, que encheu de afeto e doçura minha infância, adolescência e início da vida adulta. Ela partiu há quase duas décadas, com 90 anos dedicados a dar amor a muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.

Imagem: Abertura da série O Tempo e o Vento/Reprodução Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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