Vocês repararam que, há alguns meses, a Rússia voltou a ser notícia? Primeiro, foram as “ligações perigosas” entre o presidente norte-americano Donald Trump e o governo russo. Depois, o nosso interino por aqui, o Michel Temer, em meio à crise que ameaça sua própria permanência no governo, resolve ir até Moscou. Daí surge a volta ao passado: Temer chamou os empresários russos de soviéticos.

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Lembrando que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas acabou lá em 1991, com a renúncia do último líder soviético, Mikhail Gorbachev, em meio a turbulências políticas

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Para quem pouco conhece o panorama russo atual, sugiro a leitura do romance policial O Fantasma de Stálin, escrito pelo norte-americano Martin Cruz Smith. O ponto de partida do enredo é a suposta aparição do espírito do ex-governante Joseph Stálin pelos túneis do metrô de Moscou. Aliás, a foto que ilustra esse texto é do metrô de Moscou, conhecido como Palácio Subterrâneo. Tem paredes de mármore, teto alto, candelabros, mosaicos, esculturas e decorações em alto-relevo. Foi inaugurado justamente por Stálin, em 1935.

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Voltando ao livro, o protagonista é o investigador Arkady Renko, que acredita que o fantasma é um teatro para fins políticos, que tem como objetivo reacender uma nostalgia latente no povo russo

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O jornal britânico Daily Express, na época do lançamento da obra, considerou o enredo “um retrato visceral da Rússia moderna em todo seu esplendor e decadência”.

Confiram um trecho:

“Rumo a Tver, Arkady deixou Moscou e entrou na Rússia.

Nada de Mercedes, nem Bolshoi, nem sushi, nem mundo pavimentado; em vez disso, lama, gansos, maçãs caindo de uma carroça. Nada de belas casas em comunidades fechadas, mas chalés divididos com gatos e galinhas. Nada de bilionários, mas homens vendendo jarras na estrada porque a fábrica de cristal onde trabalhavam não tinha dinheiro para pagá-los, então pagava-os com mercadorias, fazendo de cada homem um comerciante que segurava uma jarra com uma das mãos e espantava moscas com a outra.

Para um dia de inverno, o clima estava anormalmente quente, mas Arkady dirigia o veículo de vidros fechados por causa da poeira que os caminhões levantavam. O Zhiguli não tinha ar condicionado nem rádio, mas o motor podia funcionar à base de vodca se necessário. De tempos e tempos, a terra era tão plana que o horizonte abria-se como um leque, e prado e lodaçais se estendiam em todas as direções. Uma estrada de terra se ramificava por um punhado de chalés e uma igreja que parecia um bolo de Páscoa inclinado, emoldurada por bétulas.

[…] As aldeias no caminho estavam definhando, esvaziadas pela evacuação em massa dos jovens, que iam para Tver, para Moscou ou para São Petersburgo em vez de sofrer o que Marx chamara de “a idiota vida rural”.

O contraponto interessante que pode ser feito é a leitura de outra obra do mesmo escritor norte-americano, também situada em Moscou, mas na década de 1980, em que a KGB está em plena ação. Parque Gorki fez um grande sucesso na época e foi parar nas telonas como O Mistério no Parque Gorky, estrelado por William Hurt.

E a Rússia não deve sair tão cedo das manchetes mundiais. Tirando a aproximação com Trump, ainda teremos a Copa do Mundo do ano que vem por lá. Se Michel Temer sobreviver no cargo até lá, é bom aprender que soviéticos só fazem parte mesmo é do passado.

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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