A Feira do Livro de Porto Alegre, um dos eventos literários mais tradicionais do país, vai até o dia 18 de novembro, no centro da capital gaúcha. A Feira, em sua 64a edição, é um exemplo de resiliência. Todos os anos é necessário um esforço para garantir sua realização, por meio de patrocínios, apoios e parcerias. Acompanho os bastidores do evento desde 2015, quando comecei a atuar na área editorial e conheci uma parte dos responsáveis pela organização da feira, que é uma das responsabilidades da Câmara Rio-grandense do Livro.

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São pessoa apaixonadas pelo que fazem e que lutam contra a falta de recursos financeiros com jogo de cintura e  valentia

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E foi preciso coragem (e diplomacia) para enfrentar a prefeitura de Porto Alegre, que queria cobrar uma taxa de milhares de reais pelo uso do espaço público, já que uma das características – e charmes – da Feira do Livro é ser realizada a céu aberto, em uma das principais praças do centro da cidade. Houve pressão por parte do meio cultural, além de  negociações diretas com o poder público. No fim, o prefeito Nelson Marchezan, do PSDB, cedeu e desistiu da cobrança. Na abertura oficial da feira, no dia 10, ele ironizou a situação e resolveu dar mais esclarecimentos, citando que em época de fake news era melhor deixar claro o que tinha ocorrido na época. ““A Feira do Livro é uma das poucas unanimidades que temos na nossa cidade. A partir de agora, o evento vai contar com segurança jurídica para acontecer todo ano, independente de vontades pessoais”, ressaltou.

Ele se referia à modificação de um decreto que tornou isentos de compensação financeira eventos que estejam classificados como bem cultural e de natureza imaterial.  É o caso da Feira do Livro de Porto Alegre, que já recebeu distinções como a Ordem do Mérito Cultural, em 2006, concedida pela presidência da república por ser um dos eventos culturais mais importantes do Brasil. Em 2005, foi declarada como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Sul e, em 2010, passou a integrar o Patrimônio Histórico e Cultural Imaterial da cidade.

Mesmo assim, foi necessária um embate com a prefeitura para que enfim não ocorresse essa cobrança que inviabilizaria um evento com 100% das atividades gratuitas. E são muitas. Nesse ano, serão mais de 700 sessões de autógrafos, de autores de todos os gêneros literários. E cerca de 500 atividades, como oficinas, mesas de debate, palestras e espetáculos teatrais.

Em meio a esses percalços, a organização seguiu com o planejamento das ações para a feira do livro de 2018. E criou uma campanha com um slogan que tem tudo a ver com o momento atual: Livro Livre – Um Mundo na Praça.

É necessário se falar em liberdade, quando muitos querem cercear a liberdade de professores em sala de aula, uma das profissões que mais podem incentivar a leitura no país. É preciso ter livros livres para que possamos ter senso crítico, inclusive para discordar de forma articulada e racional do que estamos lendo. É preciso interpretação de texto para evitar sermos enganados por notícias falsas, tão comum nos dias atuais.

E é preciso ter eventos culturais como esse. Livres e ocupando espaços públicos. Um dos exemplos do que estou me referindo foi um debate sobre a luta para o acesso a leitura promovido por representantes de bibliotecas comunitárias.

O Slam Conexões trouxe poesia para a praça, sem deixar de lado o engajamento político, com o coro de: “Racistas, fascistas, não passarão!”

Outro evento que merece destaque é a Mostra da Resistência, que contará com o lançamento de um e-book sobre o legado de Paulo Freire.

Pessoalmente, estou envolvida com duas atividades na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre, o que me traz muito orgulho. Um é um evento cultural infantil chamado MúsicaLivro ao Vivo, no qual conto com a parceria generosa de músicos para fazerem essa conexão entre musicalidade e literatura.  Será nessa terça-feira, dia 6, no Teatro Carlos Urbim, na Praça da Alfândega.

No dia 8, quinta-feira, participarei de um painel com a jornalista de São Paulo, Gabriela Romeu, sobre produção cultural para a infância e seu espaço na mídia.  Gabriela também é escritora, documentarista e crítica de teatro infantil. Será um bate-papo em que o cerceamento à liberdade certamente virá à tona durante a conversa.

Sigamos livres!!

Foto de capa: Maria Ana Krack / PMPA

Foto – Evento bibliotecas comunitárias : Diego Lopes/Feira do Livro de Porto Alegre

Foto – Slam Conexões: Pedro Heinrish/Feira do Livro de Porto Alegre

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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