Na semana passada, escrevi meu ponto de vista a respeito da importância da literatura infantil antirracista. Mas o tema é amplo e as reflexões a respeito do assunto merece mais olhares. Por isso, convidei para ocupar a coluna de hoje Gislene Sapata Rodrigues, bibliotecária, contadora de história e especialista em Teoria  e Prática da Formação do Leitor. Gislene, que vivencia em seu dia a dia o encantamento das crianças com a literatura, traça um necessário panorama sobre a presença de escritores negros no Brasil, além de apontar o impacto de livros antirracistas para humanizar o olhar infantil e evitar que considerem vidas negras descartáveis. Boa leitura!

Histórias pretas importam: o papel da literatura infantil para a construção de uma sociedade antirracista

A literatura para a infância é vasta e diversa em autoria, obras e temas. Engana-se quem vê apenas caráter pedagógico e utilitário da produção literária para a infância e quem acredita que a literatura infantil é apenas fruição, passatempo e mero entretenimento (apesar de também sê-lo). A literatura é arte das palavras e, embora não pretenda essencialmente, é capaz de nos mobilizar, de nos convocar a ampliar e modificar o nosso olhar sobre nós mesmos, os outros e o mundo.  

Antonio Cândido, em Direito à literatura, descreve a literatura como direito humano e demonstra o papel humanizador que a literatura tem em nossa vida. Já Nancy Huston nos descreve, seres humanos, como espécie fabuladora, que necessita da fabulação e das histórias para existir. Da mesma forma, em estudo recente, o psicólogo Keith Oatley defende que ler literatura nos torna mais empáticos, capazes de vivenciar outras vidas, dado que a habilidade de colocar em palavras o que a vida não comporta é matéria da arte e, como não poderia ser diferente, da literatura também.

Contudo, surge a pergunta: quantos escritores negros você tem na biblioteca de casa, na biblioteca que você frequenta?

Num país em que 54% da população é autodeclarada negra e parda, a produção editorial de escritores negros e de escritoras negras corresponde, segundo estudo da professora  Regina Dalcastagnè (UnB), a apenas 7%  dos livros publicados no Brasil. A participação tímida dos autores negros e das autoras negras no mercado editorial brasileiro contrasta com a população carcerária no Brasil 70% negra. E aqui reside o perigo de uma história única, apresentado por Chimamanda Ngozi em uma palestra de 2009 no programa TED Talk, cujo problema consiste em ler sempre a história contada pelos brancos. Desse modo, a população negra não está nas estantes das bibliotecas, mas apenas na mira do fuzil do Estado.

A construção de novas narrativas em um país tão desigual socialmente e economicamente está lá nas paredes da escola pública sucateada. O acesso à educação pública e de qualidade será a virada de chave. A caminhada é longa, e fica registrada aqui a solidariedade a tantos profissionais que estão remando contra a maré e que, no contexto da pandemia, não têm o menor horizonte de como dar continuidade ao ano letivo. Mas uma solução para diversos obstáculos está na escola, na biblioteca da escola, cuja existência é obrigatória nas escolas da rede pública e privada, conforme a Lei 12.244/2010. É na biblioteca, na escola, que podemos efetivar a educação antirracista. Trabalhos como aquele da educadora Larisse Moraes com o coletivo Afroativos nos dão alento e esperança, mostrando que é, sim, possível que existam novas narrativas. O lançamento da obra A gente que lute no ano passado, escrita por estudantes oriundos da escola pública sob a coordenação de professoras como a professora Ana Paula Cecato, evidenciam que é possível (e necessário) usar a leitura e a escrita como arma para lutar contra o racismo.

E é nas escolas que a leitura de livros de temáticas afro-brasileiras e africanas, com a leitura de autores negros, é um passo importante na busca de uma educação antirracista, pois se os estudantes têm acesso a obras escritas por autores negros, como Conceição Evaristo, Kiusam de Oliveira, Ryane Leão, Bell Hooks, Jarid Arraes, estamos subvertendo a ordem e o cânone, estamos avançando em relação a narrativas únicas sobre os negros no Brasil e no mundo, reconhecendo, assim, a intelectualidade negra.

Para as crianças negras, a busca da ancestralidade e o fato de se sentirem representadas nas páginas de um livro e nas estantes de uma biblioteca dão a todas uma oportunidade de reconhecerem-se e de construírem sua autoestima.

Reconhecer outras narrativas além das impostas pela mídia e pelo cânone e do uníssono da escravidão presente nos livros de história, dessa forma, se configura como muito importante, dado que o racismo estrutural no Brasil acaba por silenciar e apagar o corpo negro e suas feições. Falar com as crianças negras sobre racismo também lhes proporciona ferramentas para o enfrentamento de algo sutil e danoso a sua psiquê, à sua autoimagem e aos seus sonhos.

Para as crianças não-negras e brancas, o contato com as histórias, os personagens e as autorias negras permite que desenvolvam relações de respeito e afeto, impedindo que essas tornem os corpos, as subjetividades e as vidas negras descartáveis. A partir do momento em que conseguimos engajar todos na questão racial, inclusive percebendo seus lugares de fala e de cala, estamos caminhando para um olhar mais crítico e responsável em relação a um problema que ceifa tantas vidas.

A professora Eliane Debus (2018), da UFSC, em sua pesquisa sobre temática africana e afro-brasileira na literatura infantil, organiza essa produção literária em três categorias: literatura que tematiza a cultura africana e afro-brasileira; literatura afro-brasileira escrita por escritores negros e escritoras negras; e literaturas africanas, escrita pelos autores do continente africano que cada vez mais têm sido traduzidos, como, Ondjaki, Chimanda Ngozi e Noémia de Sousa.

É importante também observar como os personagens negros aparecem retratados.

São desumanizados? Estão em posição de subordinação aos personagens brancos? Essas são questões importantes para analisarmos se pensarmos que, de alguma forma, a escrita de literatura feita pela imensa maioria de homens brancos acaba por reproduzir o status quo. E nem me venham com Lobato.

Gostaria de compartilhar algumas produções potentes que devem fazer parte da sua biblioteca pessoal e das crianças da sua vida:
Além disso, gostaria de fazer um convite para vocês buscarem as ótimas editoras que se dedicam a disseminar obras de escritores negros e temáticas afro centradas em suas publicações:
  Educar para a diversidade em um país racista não é fácil, mas é urgente.

Imagem capa: Suad Kamardeen/Unsplash

Imagem texto: Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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