Vivemos tempos difíceis, sabemos. Em meio a uma pandemia com milhares de mortos no Brasil, ainda precisamos lidar com uma crise política. Além disso, há denúncias frequentes de violência policial contra negros, nem sempre com a justa punição aos policiais racistas. Ao nos depararmos com um panorama desses, a tendência é de perdermos a esperança no futuro. Acredito que em, em momentos assim, precisamos recorrer às nossas convicções mais profundas e singelas para termos força para seguir adiante. Tem gente que tem fé religiosa. Já eu, acredito no poder da literatura infantil como uma ferramenta de transformação social. Sei que parece utópico, mas pensem comigo: crianças com acesso a bons livros podem ser adultos menos preconceituosos, além de adquirirem capacidade de interpretação de texto e de empatia. Ou seja, a leitura é um hábito que só traz benefícios.

LITERATURA INFANTIL ANTIRRACISTA

Sendo assim, apelo para os adultos que leem esse texto para que, caso haja uma verba disponível no orçamento doméstico, invistam em livros infantis. Mas não em qualquer obra, pensem no conteúdo que será direcionado aos pequenos. Destaco isso porque sei, por trabalhar no mercado editorial infantojuvenil, que há muitos títulos que apenas reproduzem estereótipos e não trazem ensinamentos relevantes. Porque imagino que você aí, que está me lendo, é uma pessoa  consciente. E que, caso seja branco, não vai querer criar um filho de forma racista. Então, livros infantis com representatividade negra são fundamentais para abordar o assunto em casa. 

UM CLÁSSICO INFANTIL

Uma das sugestões é Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado, lançado nos anos 1980, que destaca a beleza da protagonista:

“Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.”
PERSONALIDADES NEGRAS

Outra sugestão é a coleção Black Power, que destaca a trajetória de seis personalidades negras: Martin Luther King, Rosa Parks, Nelson Mandela, Barack Obama e Carolina Maria de Jesus. Os livros são ilustrados e os textos, adaptados para o público infantil. A intenção é demonstrar o quanto a violência gerada pelo racismo é inaceitável.   

PARTE 2

Considerando ser impossível esgotar um tema tão complexo em um só texto, convidei a bibliotecária Gislene Rodrigues para, na semana que vem, abordar a importância do protagonismo negro na literatura infantil. Além disso, organizarei, com a ajuda dela, uma lista com diversas sugestões de leituras antirracistas. 

Encerro esse texto com a pungente declaração de Martin Luther King, proferida há 57 anos e, infelizmente, ainda permanecendo como um sonho futuro:

Eu tenho um sonho… de que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo caráter.”

Imagem:  Rapheal Nathaniel/ Iso Republic

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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