Por que devemos valorizar a literatura escrita por mulheres? Os motivos são inúmeros, mas podemos citar o simples fato de que livros de autoria masculina são consumidos por ambos os gêneros, enquanto as obras criadas por mulheres acabam sendo lidas apenas pelo sexo feminino. Uma espécie de misoginia literária, como se as mulheres não tivessem a capacidade de criar um conteúdo profundo e interessante o suficiente para agradar a exigência masculina. Outra razão, essa muito mais cruel e assustadora, é o fato da violência contra a mulher ter crescido muito, em nível mundial, nesse período de pandemia e isolamento social. Muitos homens seguem vendo suas parceiras como sua propriedade e não como seres humanos autônomos, independentes e protagonistas de suas histórias.

ENTREVISTADA QUE FOI ALÉM

Todas essas reflexões passaram pela minha cabeça enquanto entrevistava a pesquisadora e escritora Lélia Almeida na semana passada. Enquanto eu me limitava a fazer perguntas diretas a respeito da personagem Maria Valéria, de O Tempo e o Vento, Lélia ia além. A escritora fez reflexões sobre o quanto uma personagem feminina tem limitações ao ser escrita por um homem, por mais talentoso que Erico Verissimo fosse. E incluiu em suas respostas muitas informações relevantes sobre a literatura feita por mulheres e pontuou o fato de manter, há anos, um grupo permanente de estudos de literatura de mulheres. O resultado vocês conferem abaixo, na segunda parte da entrevista com a escritora.

VOOS LITERÁRIOS ENTREVISTA LÉLIA ALMEIDA

Escritoras mulheres como foco de interesse

“Faço há cerca de 30 anos um trabalho de leitura de mulheres e acabei sendo ‘alfabetizada’ nesse sentido. De ler obras sem o ponto de vista dos homens. Com o passar do tempo, fui me distanciando da pesquisa que fiz sobre O Tempo e o Vento, a ponto de chegar a recusar uma oficina que faria usando como ponto de partida as personagens femininas do livro de Erico Verissimo. Acabei indo por outros caminhos, então esse trabalho não me diz mais respeito.”

Crítica feminista

“Os primeiros estudos da crítica feminista trabalham com dois caminhos: um deles é analisar como as personagens femininas são representadas pelos homens. O outro caminho é a escrita das mulheres. Nesse sentido, acredito que exista uma limitação quando se lê personagens como a Maria Valéria, por ser uma figura feminina escrita por um homem. Apesar de que Erico Verissimo, talvez de forma até inconsciente, tenha conseguido captar algo diferente nessa personagem e colocado nela elementos fora do convencional, ao apresentar uma mulher que não casou mas tem autoridade dentro do enredo.” 

Mulher só, mulher maldita

“No grupo permanente de estudo de literatura de mulheres que mantenho, já estudamos a figura da solteirona. Essa personagem meio maldita, socialmente amaldiçoada, que não tem a proteção do pai e nem de um marido, como é o caso das heroínas góticas. São grandes personagens, cheios de pulsões, sentimentos e contradições. A figura da mulher só é interessante, pois ela se nega a cumprir determinações sociais, como ser esposa e mãe.”

O mito do amor romântico

“Toda a cultura feminina tradicional está baseada no mito do amor romântico. Essa ilusão provoca prejuízos às mulheres até hoje. A gente vê casos de mulheres muito empoderadas que se deixam abalar por uma rejeição masculina. Acredito que substituímos algumas armadilhas por outras. Antes havia a obrigação da virgindade, de casar de branco, de ter determinado número de filhos. Hoje, existe a obrigatoriedade do parto natural, da doula, da amamentação. As mulheres sempre acabam envolvidas por regras que ditam como elas devem viver e se comportar.”

Sexualidade feminina 

“Outro erro atual, na minha visão, é reduzir a sexualidade feminina à questão da violência. Enfrento muitas críticas quando falo isso, mas seguirei defendendo essa ideia. A minha geração [a escritora nasceu em 1962] brigou pela expressão da sexualidade tanto na literatura quanto na vida, pelo direito da mulher sentir prazer na experiência da sensualidade. A sexualidade é muito maior e mais abrangente do que apenas a violência, a vitimização e a cultura do estupro.”

Relações virtuais

“As relações por aplicativos e pela Internet também afetam as mulheres de uma forma que me surpreende. Vejo alunas minhas, na faixa dos 40 anos, fazendo confidências que vi em mulheres da geração anterior à minha. Todas com muitas dúvidas e inseguranças, temos muito o que avançar nesse sentido.”

Pelo direito de não ser mãe

“Uma das vertentes na literatura escrita por mulheres são obras que buscam garantir a possibilidade das mulheres não serem mães. Uma dessas autoras é a chilena Lina Meruane [autora da obra Contra os Filhos, um ensaio que questiona os modelos de maternidade e família]. Nessa obra, Lina cita diversas escritoras que foram contra a maternidade, como Virginia Woolf.

Cuidar dos outros ou de si?

“Para além da questão da maternidade, o que está impregnado nas mulheres é a cultura do cuidar do outro contra o cuidar de si mesma. O cuidar é sempre feminino. O problema é que em geral as mulheres esquecem de olhar para suas vontades ao se dedicarem aos cuidados e vontades de outras pessoas.”

Meninas más

“As mulheres não são sempre boazinhas na vida real. Por isso, admiro escritoras que saem desse padrão estereotipado. A espanhola Carmen Martín Gaite aborda no artigo La Chica Rara, no livro Desde La Ventana, as meninas más. Já a argentina Silvina Ocampo usa o termo “menina terrível” na antologia Cuentos de la nena terrible.

Preconceito literário

“Temos casos clássicos de mulheres transgressoras na literatura que acabam morrendo no final do enredo ou sofrendo grandes punições. Uma delas é Madame Bovary. Assim como a representação da loucura. Nos homens, é algo genial. Nas mulheres, sempre é apresentada de forma negativa. Tudo isso é estudado fartamente pela crítica feminista. Por isso, precisamos ler mulheres. Mas devemos ficar atentos, pesquisar e dar preferência para escritoras que não sejam machistas, que pactuam e reproduzem o discurso vigente. Outra barreira a ser rompida é a dos leitores homens. Por mais inteligentes e evoluídos que pareçam, dificilmente são leitores de obras escritas por mulheres.”

Livros de Lélia Almeida

Numa Estrada Sem Fim que Carrego Aqui Dentro

Antonia

Senhora Sant’Ana

As mulheres de Bangkok

50 ml de Cabochard

A sombra e a chama: (uma interpretação da personagem feminina n’O tempo e o vento, de Erico Verissimo)

Querido Arthur

As gregas do Mangue

As meninas más na literatura de autoria feminina

O amante alemão (Prêmio Açorianos de Literatura, 2013)

Este outro mundo que esquecemos todos os dias.

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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