Trabalhar e ser mãe não é fácil em pleno século 21. Agora vocês imaginem ser mãe solo na década de 1980, tendo um trabalho “mutcho loco”: ser apresentadora de rádio de uma das emissoras mais transgressoras e criativas do Brasil, a Ipanema FM. Eu conheço a Katia Suman de vista do mundo da comunicação e não foi exatamente uma surpresa ela falar sobre maternidade em seu excelente livro Katia Suman e os diários secretos da rádio Ipanema FMA contundência do relato é que me impactou profundamente, mesmo eu não tendo vivenciado a maternidade.

O trecho abaixo é uma transcrição do livro e eu mantenho o estilo de escrita da radialista, que não usa letras maiúsculas:

em 1985 eu engravidei de um cara com quem eu tinha uma história. alguma coisa aconteceu dentro de mim, algo muito intenso e definitivo, e eu quis muito ter aquele filho. eu, que nunca tinha pensado em ser mãe, muito menos mãe solteira, naquele momento eu não tive nenhuma dúvida. eu tinha 28 anos.

meu filho nasceu em casa em fevereiro de 86, no ap pra onde eu tinha me mudado um mês antes. nesse momento a rádio engrenava um caminho que a levou a grandes índices de audiência e a uma inserção decisiva nos corações e mentes da galera jovem.

meu filho não teve pai e isso de alguma forma marca uma pessoa para sempre. as marcas do abandono e da rejeição são profundas e não há nada que eu possa fazer. eu poderia acrescentar que o pai do meu filho foi um grande idiota omisso, um grande e desprezível irresponsável sem noção, mas suponho que aqui não seja o local adequado. na verdade eu achei que daria conta do recado sozinha, mas, nao foi bem assim. ele até me apoiou na decisão de ter o filho mas na prática mandou um solene ‘te vira’, o que foi ainda pior, porque nem clareza da situação eu tinha. na linguagem de hoje das redes sociais é mais fácil de explicar: o cara mandou um #tamojunto sqn.

eu não tinha a menor noção da complexidade envolvida no ato de educar uma criança. eu trabalhava muito e num certo momento voltei a estudar. com a rádio crescendo e a demanda de trabalho e a responsabilidade também, resulta que o playground foi a rádio e antes mesmo dele completar 9 anos já sabia operar o equipamento todo, rodar as músicas, os comerciais, ligar o microfone. enquanto eu estava no ar, nos finais de semana, ele ficava no outro lado do aquário, na técnica com o operador.

essa é uma espécie de lenda doméstica: começo da década de 90, ainda não tínhamos computadores, os CDs novos adquiridos pela rádio eram catalogados pela ordem de chegada e não por ordem alfabética,e isso dificultava muito a busca. e quem era a pessoa que sabia a numeração praticamente de cor dos milhares de discos da discoteca da rádio? o bruno, no auge dos seus 6, 7 anos de idade. de vez em quando alguém ligava para a minha casa para perguntar para o bruno, que número era o disco tal e ele dizia o número na hora.

no brasil apesar de quase metade das famílias (40% segundo o ibge) serem comandadas e sustentadas por mulheres, ainda há preconceito contra mães solo. trabalhar, bancar a estrutura toda, organizar a casa, com tudo que envolve isso, providenciar babás, bons colégios, plano de saúde e estudar. essa sou eu desde 1986. aliás, em 2018 continuo fazendo as mesmas coisas, continuo sustentando a casa, trabalhando e estudando. só não preciso mais de babá, porque a minha filha menor, barbara, que já nasceu em outro momento da minha vida, está com 17 anos. quando falam em ‘empoderamento’ feminino acho que é disso que se trata.”

É bom deixar claro que o ponto central do livro não é a trajetória pessoal da radialista. O relato baseia-se na análise de cadernos que eram a forma do pessoal da Rádio Ipanema trocar informações internas, em uma era pré-Internet em que muitos nem telefone fixo em casa tinham, que dirá celular. A escritora consegue traçar um panorama rico e relevante do cenário cultural do Rio Grande do Sul (e do Brasil) da década de 80/90, a partir do ponto de vista de quem fazia parte de  uma emissora de rádio inovadora e transgressora por natureza, além de contar episódios divertidos sobre os bastidores da rádio. Um prato cheio para os saudosistas de plantão mas também para os mais jovens ficarem por dentro de como era complexo e “artesanal” fazer rádio até os anos 90 no Brasil.

Conhecida como uma das vozes mais marcantes da rádio Ipanema, Katia Suman segue firme e forte na luta pela cultura underground local. Entre outras iniciativas, mantém via web a Radioelétrica e capitaneia o  Sarau Elétrico, um dos eventos literários mais bem-sucedidos de Porto Alegre.

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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