O João da nossa história não tem um pé de feijão. Isso porque ele mora em uma área periférica de uma grande cidade, em uma república assolada por uma pandemia e massacrada por um governo federal mesquinho. Mas João não sabe disso. Ele acredita em um conto de fadas no qual a pandemia foi inventada por chineses e em que o presidente é impedido de trabalhar por um vilão chamado STF.

Mas vamos à história

João está sentado, em frente à televisão, depois de mais um dia de trabalho como motorista de aplicativo. Perto dele, em uma mesa no mesmo cômodo, está a família do nosso personagem. Nesse momento, a esposa serve arroz e feijão para o filho do casal, um menino de uns 8 anos.

Apesar de visivelmente cansado, João fica feliz ao ver o presidente aparecer no noticiário.

“Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Aí tem um idiota: ‘Ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar.”

Reagindo à notícia, a mulher de João faz cara feia e revira os olhos, sorrindo para o filho, que resmunga:

“Eu prefiro feijão. E não gosto desse homem feio!”

João se volta em direção aos familiares, com os olhos brilhando, e argumenta:

“Vocês não entendem o presidente. Ele quer que a gente fique protegido contra os bandidos. E o preço do feijão não é culpa dele, é dos governadores.”

Apesar de contrariada, a mulher de João não reage e faz um sinal para o filho ficar quieto. Permanecem calados até o fim da refeição e depois vão cuidar de suas vidas longe do nosso protagonista. João segue em frente à TV, mas sem prestar atenção ao que está passando. Apesar do ar absorto, parece estar sonhando com algo bem concreto. Sorri para si mesmo, enquanto pensa em como será bom o seu futuro podendo levar uma arma em seu carro. 

“Liberdade de verdade para os cidadãos de bem”, sussurra, satisfeito.

No dia seguinte, João acorda e vai trabalhar. Ele ainda não sabe, mas será morto por uma bala perdida, em uma suposta troca de tiros entre policiais e traficantes. Também não imagina que seu filho, no futuro, fará campanhas contra armas e lutará por coisas como justiça social e feijão no prato de todos. João ficaria escandalizado com seu herdeiro virando o que ele mais temia, um comunista.

A inspiração real para o texto

Escrevi o reconto “João e o pé sem feijão” baseado em mais uma das falas lamentáveis do presidente da República. 

O original literário

Para quem se interessar sobre textos literários deste gênero, sugiro a leitura de Contos de Fadas em suas versões originais, da editora Wish. 

Imagem: Ariel Nuzeg/Pixabay





 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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