Era para a gente estar nos Jetsons e estamos voltando para os Flintstones”

Assim Rita Lee, a rainha do rock brasileiro, definiu o triste momento que vivemos no Brasil. A referência aos dois desenhos animados foi feita durante uma rara entrevista da artista publicada no jornal O Globo, no último domingo. No passado, quando imaginávamos o ainda distante século 21, pensávamos em carros voadores e casas suspensas como em Orbit City, moradia dos Jetsons. Contudo, o que vemos mesmo é a volta à barbárie, que combina mais com a Bedrock pré-histórica dos Flintstones.

E o que dizer de uma teoria que circula na Internet sobre os dois universos ficcionais serem contemporâneos? Será que isso também se aplicaria à realidade brasileira? Vamos primeiro analisar os desenhos animados. O estúdio Hanna-Barbera lançou Os Flintstones e os Jetsons na década de 1960, com grande sucesso mundial. Muitos fãs já defendiam que as duas histórias se passam no mesmo local, mas em épocas diferentes. 

Desigualdade social

Já os mais ousados asseguram que os Flintstones seriam os pobres do futuro, vivendo na superfície terrestre depois de algum cataclisma. Por isso, teriam hábitos nada neandertais, como assistir televisão, usar carros (ainda que precisem impulsioná-los com os pés) e terem eletrodomésticos rústicos, a partir da exploração animal. Porém, não teriam acesso a todo o conforto tecnológico dos Jetsons, com suas esteiras rolantes para evitar esforço para caminhar, robôs e diversos apetrechos que hoje em dia já são comuns, como chamadas de vídeo.

Sendo assim, os Jetsons e os demais moradores do espaço seriam os privilegiados daquela sociedade, vivendo isolados das pessoas comuns que estão na Terra. Se pensarmos no Brasil, o abismo social é ainda maior do que a comparação entre os Flintstones e os Jetsons. No duro mundo real, enquanto alguns ficam em filas para conseguir ossos, outros vivem cercados por luxo. Afinal, a pandemia só escancarou essa disparidade entre os muito ricos – que enriqueceram ainda mais – e os muito pobres – que ficaram ainda mais miseráveis. 

Rita Lee sabe das coisas

Como Rita Lee comenta na mesma entrevista, “é assustador ver gente no comando com mente tão ultrapassada”. Afinal, os conservadores de plantão, além da agenda contra as pautas identitárias, também querem a manutenção dos privilégios nas mãos dos mesmos de sempre.

E o povo? Que se distraía em frente à TV, como Fred Flintstone, e esqueça dos abusos de um chefe como o Sr. Pedregulho.  Porém, se o plano dos muito ricos se concretizar, mesmo em um universo de menos desigualdade ainda poderemos ser como George Jetson suportando os gritos de Cosmo Spacely, o irritado dono da empresa onde o personagem trabalha.

De onde vem a teoria

O livro 52 mitos pop, de Pablo Miyazawa, trata sobre essa e outras teorias mirabolantes e divertidas da cultura pop. Porque se é para criarmos teorias da conspiração, que sejam inofensivas como essa.

Imagem: Filme Os Jetsons e os Flintstones se encontram (1987)

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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