A foto de Hitler estampada em um bolo de aniversário circulou na Internet nesta semana. Com certeza, o incidente preocupa quem compreende a gravidade da apologia ao nazismo. O fato veio à tona pois não houve preocupação em esconder nada. Foi a própria aniversariante, uma aluna do curso de História da Universidade Federal de Pelotas, de 24 anos, quem postou a imagem nas redes sociais.

Enquanto a polícia investiga o ocorrido, a UFPEL informou, em nota, repudiar qualquer apologia ao nazismo ou outra forma de discriminação. Sempre vale lembrar, a pena é de 2 a 5 anos de reclusão para esse crime, que não deve ser confundido com tentativa de censura.

Conjuntura brasileira

O que, no meu entender, chama mais a atenção no episódio do bolo com o rosto de Hitler é o contexto em que tal exaltação ocorre. Estamos na fase de conclusão de uma CPI que demonstrou as atrocidades cometidas durante a pandemia que – em muito – lembram os horrores do nazismo.

Nesse panorama, julgo ser no mínimo uma demonstração de desconexão da realidade e negacionismo enaltecer uma figura que promoveu o genocídio em campos de concentração. Além disso, admirar o legado de um líder racista, homofóbico e xenófobo é incrivelmente perigoso no momento político atual do Brasil. Para piorar, essa homenagem ter vindo de uma estudante de História parece uma piada de mau gosto. 

Por isso, considero essencial que estejamos atentos ao passado, para evitar que fatos históricos sejam distorcidos, apagados ou relativizados.

Sobre a tirania

Um livro interessante para refletir sobre o assunto é Sobre a tirania, vinte lições do século XX para o presente, de Timothy Snyder. Na obra, o historiador demonstra a importância de aprendermos com experiências autoritárias, para que os mesmos erros não sejam cometidos novamente.

Snyder destaca, no trecho abaixo, como nem sempre os eleitores estão atentos ao riscos de escolher um líder com características antidemocráticas:

“O protagonista de um romance de David Lodge diz que quando faz amor pela última vez, você não tem como saber que é a última. Com o voto, acontece o mesmo. Alguns alemães que votaram no Partido Nazista em 1932 sem dúvida se deram conta de que aquela poderia ser a última eleição razoavelmente livre durante algum tempo, mas a maioria não percebeu isso.”

A História ensina?

De acordo com o autor, a História não se repete, mas ensina. Espero mesmo que ele esteja certo. Pois ver tantos neonazistas saindo do armário no Sul do Brasil ao longo dos últimos anos é desanimador.

Espero que ao menos no caso da estudante da UFPEL a justiça seja feita, para servir de lição a quem comete crimes de ódio, como a apologia ao nazismo.

Imagem: OpenClipart-Vector/Pixabay

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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