O que a Hidra de Lerna tem a ver com a CPI da Pandemia? Muita coisa, de acordo com o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O senador comparou o monstro mitológico aos múltiplos esquemas de superfaturamento de vacinas investigados pela CPI. Recordando a lenda, Randolfe explicou que a Hidra tinha muitas cabeças que, ao serem cortadas, regeneravam-se. Ou seja, quanto mais a investigação avança, mais indícios de corrupção aparecem, em diferentes “tentáculos”.

A Lenda

Nos dias atuais, a Hidra é mais lembrada por fazer parte da lenda dos 12 Trabalhos de Hércules (ou Héracles, para os gregos). O herói mitológico teve como segundo desafio matar o monstro com corpo de dragão e múltiplas cabeças de serpente – uma delas imortal. Para alcançar esse objetivo, ele usou de astúcia. Depois de cortar cada cabeça, cauterizava o local da ferida, impedindo sua regeneração. Já a cabeça imortal foi cortada e enterrada. Em cima, Hércules colocou uma grande pedra. De acordo com análises psicanalíticas, a cabeça imortal da Hidra representa os vícios humanos. Estes, mesmo controlados, ainda estão vivos e precisam ser vigiados. Se pensarmos na comparação recente, nada mais é recorrente (e imortal) que a corrupção brasileira. Presente em solo brasileiro desde antes do Brasil República, é insistentemente combatida e ressurge, igual a uma Fênix, outro ser mitológico.

Mais comparações com o Brasil 2021

Mas me permitam prosseguir nas comparações mitológicas. De acordo com versões mais consagradas, a Hidra de Lerna tinha três irmãos. Um deles era o cão Cérbero, guardião do portal do Inferno. Sua função era impedir a saída de quem tentasse fugir daquele lugar de sofrimento. Tal qual Jair Bolsonaro e sua equipe, que fizeram de tudo para dificultar o início da vacinação contra Covid no Brasil, postergando um cenário com milhares de mortes diárias. 

Outro irmão da Hidra era o cão Ortro, que tinha como função vigiar o rebanho de gado do gigante Gerião. Pois coube novamente a Hércules a tarefa de libertar o gado. Hoje, é de todos nós a missão de tentar esclarecer o “gado” bolsonarista, ainda apegado a um governo incompetente e corrupto.

O monstro da incoerência

Para completar esta família mitológica, vamos falar da terceira irmã da Hidra: Quimera. Este monstro é muitas vezes representado com corpo de leão, cabeça de cabra e cauda de dragão. Sua estranha aparência leva a um de seus significados mais usuais, o da incoerência. E nada mais incoerente do que os argumentos do presidente da República para refutar as inúmeras denúncias de irregularidades envolvendo seu governo.

Sem heróis

Por fim, é imprescindível que deixemos os heróis para as lendas mitológicas. Ninguém no Brasil 2021 deve esperar um Hércules para matar a Hidra de Lerna metafórica e outros monstros da má política. Precisamos mesmo é de conscientização e luta  por mudanças estruturais na sociedade. Estas, só virão com muita pressão e consciência de classe. E sempre é bom lembrar que, certamente, Bolsonaro nada tem de mito, como já abordei nesse texto.

Para ir além

Aos interessados em aprofundar o conhecimento sobre mitologia, sugiro duas leituras: Mitologia grega, de Pierre Grimal, e A sabedoria dos mitos gregos, de Luc Ferry.

Imagem: Pinterest/Reprodução



   

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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