“Os jovens terão que ficar em casa e torcer pelos avós. Assim o jornalista José Trajano define a ideia, surgida nas redes sociais, de que a geração de 1968 vá às ruas protestar contra o governo Bolsonaro. A referência etária se deve ao fato de que as possíveis manifestações ocorreriam após a vacinação em massa dos idosos no Brasil. Confira a entrevista completa aqui

Protesto contra os desmandos bolsonaristas

A possibilidade de protestos promovidos por quem lutou contra a ditadura militar me parece um sopro de esperança. Além disso, seria muito simbólico que os atos contra a condução irresponsável e criminosa da pandemia pelo governo federal fossem promovidos pela faixa etária acima de 60 anos.

Valorização dos idosos

Primeiro, por demonstrar o quanto o preconceito etário precisa ser combatido. Muitos jovens, mesmo sendo progressistas, esquecem ou desvalorizam as lutas promovidas pela geração de 1968. Não apenas pelo que fizeram no passado, mas também por isso, os idosos de hoje devem ser tratados com dignidade.  E essa deve ser uma pauta prioritária da esquerda brasileira, hoje e sempre.

Eliminação dos “menos aptos”

Segundo, porque há um discurso eugenista em relação à velhice desde que a pandemia começou no Brasil. Um dos argumentos escrotos é de que os idosos deveriam estar fora do grupo prioritário de vacinação. O motivo? Não serem mais produtivos do ponto de vista econômico. Para agravar essa situação, diante do colapso do sistema de saúde brasileiro, há uma nova perseguição aos mais velhos. Existem lideranças políticas da extrema-direita defendendo que idosos não recebam tratamento médico. Por esse entendimento insano, a prioridade de atendimento seria apenas a vida dos mais jovens e “aptos”. A justificativa velada é, novamente, de que aposentados seriam um fardo para a sociedade. O que, sabemos, está longe de ser verdade. Na atualidade, muitas famílias estão sendo sustentadas por pensões e aposentadorias, após a escalada do desemprego e a precarização das relações de trabalho dos últimos anos.

Protestos observando protocolos

Sendo assim, há motivos de sobra para que a combativa geração de 1968 retorne ao seu papel de protagonismo político. Claro, desde que haja toda a segurança para evitar novas contaminações pelo coronavírus. A ressalva já foi feita pelo próprio Trajano, em suas redes sociais

“Quanto a ideia de sair às ruas depois de 20 dias após ter recebido a segunda dose, usando máscaras e tentando observar o máximo de distanciamento social possível, só o faremos se cientistas derem sinal verde. Caso contrário, esperaremos para por o bloco na rua e gritar GENOCIDA!”

Desinformação e preconceito etário

Após a divulgação da notícia sobre uma possível manifestação promovida pela geração de 1968, uma onda de desinformação começou a circular. Houve o entendimento, equivocado, que a referência seria às pessoas nascidas naquele ano, que estariam sendo chamadas de “velhas” (Novamente, observamos o preconceito etário, mesmo entre esquerdistas). 

Por isso, considero necessário recomendar algumas leituras para a compreensão de um ano tão importante historicamente. 1968 pode, inclusive, servir de inspiração para o sombrio momento atual.  

1968: O ano que não acabou, de Zuenir Ventura

 A obra é uma referência no Brasil sobre o assunto e teve uma edição especial em 2018. No prefácio dessa nova edição, o autor comenta:

“Apesar da resistência do atraso, o Brasil é, inegavelmente, melhor do que era em 1968. As mudanças de costumes e comportamentos foram tantas — e produzidas ao mesmo tempo — que estão sendo responsabilizadas pela atual onda de conservadorismo que grassa aqui e no mundo, ou seja, tenta-se culpar o avanço dos anos 1960 pelo retrocesso dos anos 2000.”

Zuenir Ventura também destaca o quanto a falta de vivência e conhecimento contribui para que a o regime militar brasileiro seja exaltado na atualidade:

“[…] há entre os que não viveram os tempos de ditadura militar a falsa impressão de que, graças à ordem armada, não existia corrupção como a que se verifica atualmente no país. Um episódio apenas para desfazer esse engano: em 1968, o governo chegou a instalar uma Comissão de Investigações para confiscar os bens adquiridos de maneira ilícita por militares e agregados. Como se não fosse suficiente, em 1970 o Coordenador da Oban (braço clandestino da repressão) propôs ao Comando do II Exército uma Oban específica contra a corrupção, que não era percebida pela sociedade porque uma implacável censura impedia que a imprensa noticiasse.” 

1968: Quando a Terra Tremeu, de Roberto Sander

Sinopse: 1968 é um ano-chave para a história mundial e brasileira, repleto de episódios emblemáticos, como o Maio Francês e a Primavera de Praga, na Europa, e a Passeata dos Cem Mil e a imposição do temido AI-5, num Brasil subjugado pelo regime militar. A abordagem do jornalista Roberto Sander neste livro, contudo, não se limita aos acontecimentos políticos que tão profundamente marcaram o período. […] m 1968 – Quando a Terra tremeu, Roberto Sander explora histórias saborosas e surpreendentes sobre ciência, moda, comportamento, esporte e cultura em geral, daquele que foi um ano ainda mais complexo, assombroso e sedutor do que se sabe.

1968: Eles só queriam mudar o mundo, de Regina Zappa e Ernesto Soto

Sinopse: Um verdadeiro almanaque ilustrado da geração que disse não ao conformismo Do movimento estudantil às trincheiras do Vietnã, das comunidades hippies às passeatas pelos direitos civis, esse livro narra os principais eventos políticos e culturais e as mudanças de comportamento da época, no Brasil e no mundo. Organizado mês a mês, traz histórias saborosas, personagens emblemáticos, as músicas mais tocadas, os filmes que deram o que falar naquele ano, além de depoimentos e entrevistas com personalidades que viveram intensamente o momento. E mais: moda, Beatles, feminismo, astrologia, arte, teatro, política, entre outros temas, em textos assinados por especialistas. 

Imagem:  Twitter/Reprodução

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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