Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”

Bolsonaro, Jair – julho de 2019

No imaginário brasileiro, políticos mentem durante as campanhas eleitorais. Ao chegarem ao poder, precisariam respeitar o cargo que ocupam e ter um pouco mais de cuidado em suas declarações. Não é o que acontece desde janeiro de 2019 no Brasil. As reiteradas falas públicas do presidente da República são descuidadas e parecem ainda partir do deputado do baixo clero que era “polêmico”, para se dizer o mínimo.

A última declaração para jornalistas sobre a fome foi remendada no mesmo dia, com a alegação de que  “uma pequena parte (dos brasileiros) passa fome”. Sabemos que Bolsonaro não gosta de dados estatísticos, mas em momentos com esse, facilitaria muito se os assessores do presidente o orientassem sobre a importância de citar pesquisas idôneas ou ao menos se inteirar sobre o assunto para saber que pessoas com sobrepeso podem estar desnutridas, por exemplo.

Uma revista de circulação nacional da grande mídia chegou a fazer uma matéria com os dados estatísticos que contradizem a afirmação falsa do presidente. Para quem se interessar, é só acessar aqui.

Para além da declaração desastrosa do presidente da República, o problema da fome, no Brasil e no mundo, precisa ser compreendido por quem tem acesso a todas as refeições do dia sem precisar ter preocupação alguma.  Por isso, selecionei dois livros sobre o assunto.

O primeiro é bastante didático, e poderia ser uma leitura importante para Bolsonaro e seus seguidores. O que é fome, Ricardo Abramovay, de 1985, ainda segue bastante atual e é fundamental para entender o assunto (e não sair disparando desinformação por aí.):

A angústia que a refeição de amanhã representa hoje para centenas de milhões de seres humanos é sem dúvida o maior escândalo já conhecido no planeta, desde a fatal mordida da maçã. Por que motivo tanta gente passa fome? Por falta de comida diria o conselheiro Acácio. Por incrível que pareça, sua resposta está longe da realidade: nos dias de hoje não se pode mais identificar a fome e escassez. Ao contrário, os subalimentados que nos cercam (e que constituem quase a metade da nossa espécie) vivem num mundo de fartura e sobretudo desperdício. 

Já em Agonia da Fome, Maria do Carmo Soares de Freitas faz, a partir de um estudo de caso em uma comunidade periférica e faminta no estado da Bahia, um alerta para as autoridades:

A condição de fome, como uma das mais terríveis experiências da vida, vem confirmar a necessidade de ações políticas mais amplas do que a doação de alimentos pelos serviços de saúde para uma população concebida como “vulnerável” aos efeitos da fome crônica. Uma complementação estaria em ações que manifestem a importância da reversão dos sentidos de fome a partir da valorização social do sujeito, associado a mudanças estruturais na sociedade que produz fome. Com esse caminho, a conquista da cidadania estaria mais próxima de cada pessoa, e certamente poderia libertar-se da fome, esse espectro que ameaça a vida e interrompe qualquer sonho humano.”

A declaração  de Bolsonaro sobre a fome gerou indignação principalmente entre os integrantes da sociedade civil que se mobilizam sem apoio do poder público para tentar reduzir esse problema no país. Uma das entidades que lançou uma nota de repúdio nas redes sociais são os Cozinheiros do Bem, uma ONG que serve refeições para pessoas em situação de rua embaixo de viadutos em Porto Alegre (RS).  Abaixo, um trecho do texto:

“Lutamos contra a fome 365 dias por ano. É inevitável não externarmos nossa opinião. Repudiamos a mentira vomitada pelo homem que lidera nosso país e por isso aqui vão alguns números. 9 milhões de brasileiros entre 0 e 14 anos vivem em situação de extrema probreza (fundação Abrinq). Há no Brasil 207 mil crianças menores de 5 anos com desnutrição grave ( Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde – Sisvan). 6 em cada 10 crianças no Brasil vivem na pobreza ( Unicef). Com 1/4 da comida que vai para o lixo acabaríamos com a fome no planeta (ONU).

Não importa se você é direita ou esquerda. Tá na hora de entender que essa classe política alienada e fascista NÃO GOSTA DE POBRE!”

Na íntegra desse manifesto também tem a forma de ajudar os Cozinheiros do Bem a seguirem fazendo um trabalho que entra em uma lacuna do poder público.

Fotos: Reprodução/Facebook Cozinheiros do Bem

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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