A morte de Fernanda Young pegou a todos de surpresa. Aos 49 anos, de forma repentina e depois de posicionar-se de forma bastante contundente contra “tudo isso que está aí”.  Fernanda soube em vida ter a intensidade que precisamos para sobreviver ao atual momento sociopolítico. Seu último texto Bando de cafonas, publicado no jornal O Globo, foi exaustivamente compartilhado nas redes sociais e mostra que o muro e as meias palavras são cada vez mais o lugar dos covardes. 

“A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias.”

E coragem era uma das características dessa escritora, roteirista, apresentadora e atriz. Coragem para expor seu comportamento nada tradicional, suas loucuras e idiossincrasias, que transbordavam em suas obras cinematográficas, televisivas e literárias.  Ela sofreu pressão por parte da elite intelectual, que não a respeitava artisticamente. Com o tempo, foi impondo-se mais como sucesso de público do que de crítica, mas parecia não importar-se tanto com isso.

Para quem duvidava da sua capacidade literária, publicou 14 obras ao longo de duas décadas. Escolhi para homenagear essa figura controversa e inesquecível o livro Tudo que você não soube, um romance ficcional em que uma filha relata, de forma crua e honesta, detalhes de sua vida ao pai moribundo e ausente. Muito além da relação familiar, o texto denota todo o sarcasmo e ironia da escritora:

Eu fujo de gente que afirma não se irritar com nada. São, sem dúvida nenhuma, os mais perigosos. Porque não pensam naquilo que sentem e, sem pensar, agem. São como crianças, acreditam que um pensamento errado já é algo criminoso, então abafam suas mentes numa vaga letargia disfarçada de cuca fresca. Dizem-se calmos. Na verdade, estão atrapalhando o mundo e a natureza com seus comportamentos antinaturais. Não existe o bem-estar completo, e isso definiu o ser humano. Gente que não se incomoda com nada é o atraso da humanidade”

R.I.P, Fernanda Young. Seguiremos por aqui nos incomodando com os desmandos desse governo e tentando tornar nossa irritação produtiva e criativa, como bem nos ensinaste.

Foto: Reprodução/Instagram

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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