“A situação de penúria, principalmente das pessoas mais pobres, era gravíssima. Muitas famílias gripadas passaram a não ter nenhuma renda, visto que estavam impossibilitadas de trabalhar. Sem nenhuma lei que protegesse os operários, estes se viram à mercê da caridade pública para suprirem suas necessidades mais básicas.”

1918 – A Gripe Espanhola: Os Dias Malditos, João Paulo Martino

A situação enfrentada por operários no Brasil com a pandemia de gripe espanhola guarda paralelos com o momento atual. No início do século 20, não havia direitos para garantir o sustento dos trabalhadores. Em 2020, o cenário brasileiro já assustador na mescla de crise financeira, desemprego, informalidade e precarização das relações de trabalho está claramente agravado com a pandemia do coronavírus. 

Em um panorama tão desolador, as desigualdades sociais escancaram-se de forma explícita. Ainda vivemos em uma sociedade que as mulheres ganham menos que os homens, apesar das conquistas adquiridas nos últimos anos. Pesquisa recente revela que apesar de trabalharem mais horas e terem um grau de escolaridade maior, as trabalhadoras recebem menos. A média de rendimento feminino é de 76,5% do que um homem ganha. (Veja mais dados da pesquisa aqui.)

Para tentar reduzir essas desigualdades já existentes e agravadas pela recomendação de quarentena, foram criadas iniciativas para ajudar mulheres desempregadas, autônomas ou que atuam no mercado informal. Uma delas é o grupo público Boleto + 1, criado nessa semana no Facebook, e que já conta com cerca de 10 mil membros. A ideia é auxiliar mulheres que precisem de apoio para pagar contas, oferecer serviços ou dar sugestões de como conseguir manter os pequenos negócios em meio ao risco de contaminação pelo Covid-19. Homens podem participar do grupo, desde que a postura seja de ajuda às necessitadas, como uma forma de compensar a histórica desigualdade salarial entre os sexos.

VIOLÊNCIA

Não bastasse o efeito colateral do desamparo financeiro agravado pela pandemia, muitas ativistas feministas têm alertado para o aumento da violência doméstica devido à quarentena recomendada para evitar o contágio pela doença. Um levantamento divulgado há poucos dias pela ONU revela que, em dados globais, 28% dos entrevistados consideram justificado que maridos cometam agressões físicas contra as próprias esposas. Mas no Brasil, esse percentual chega a assustadores 77,95%. Fiquemos atentos: mulheres que vivem relacionamentos abusivos agora podem estar isoladas sofrendo agressões físicas ou psicológicas. Se ouvir, uma briga de vizinhos da sua casa, chame a polícia. A solidariedade também reside em não sermos indiferentes nesse momento.    

POPULAÇÃO DE RUA

O feminismo também busca a redução das desigualdades sociais. Se puder ajude as pessoas em situação de rua, com mantimentos, itens de higiene pessoal ou doando recursos para projetos já existentes que atendem essa população.

SAÚDE MENTAL

Por fim, apesar desse texto começar com a citação de um livro sobre a gripe espanhola, recomendo leituras mais leves. A gigante Amazon, por exemplo, disponibilizou centenas de e-books gratuitos. Cuidar do próprio equilíbrio emocional e da saúde mental nesse momento ansiogênico é fundamental. Se puderem façam o isolamento social, além de seguir as já conhecidas recomendações de lavar as mãos e usar álcool gel. Cuidem-se!

Imagem: Juraj Varga/Pixabay

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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