Esquerda cirandeira é um termo pejorativo criado há alguns anos para definir militantes deste espectro ideológico que fariam performances vazias e alegres. Mas, e se a alegria cirandeira for uma necessidade no momento atual? Ou melhor, um direito à felicidade. Afinal, vivemos, desde 2018, uma sucessão de crises: na política, na ética, na saúde pública, na economia, nos direitos humanos…

São tantas crises e tristezas cotidianas que entramos em um piloto automático para conseguir aguentar o escárnio e a falta de postura do presidente e de seu primeiro escalão cheio de figuras torpes. Então, durante a campanha presidencial, houve mesmo momentos de alegria da esquerda cirandeira, seguidos de críticas da esquerda mais “séria” e combativa. 

Dentre os episódios com maior repercussão, destaco o vídeo do Vira Voto, no qual muitos artistas se posicionaram a favor de Lula e do voto útil, e fotos de 13 livros com capas vermelhas sendo espalhadas pelas redes sociais.

Desafio elitista?

Pois é no desafio literário que gostaria de me deter para fazer algumas reflexões. Dentre as críticas que observei, me chamaram a atenção dois argumentos. Primeiro, o de um suposto elitismo, com a justificativa de que quem teria 13 livros em casa, ainda mais de uma cor específica de capa, só poderia ser alguém muito privilegiado financeiramente. Segundo, que seria um comportamento online “idoso”, revelando um preconceito etário, como se vê no tweet a seguir:

“Concordo com o voto, mas acho a coisa mais boomer que tá tendo. Tiozinho metido a sabido que curte jazz em livraria, saca?”

Desafio cirandeiro?

Bem, vamos por partes. O elitismo atribuído a quem gosta de literatura é uma constante no Brasil. Paulo Guedes, o famigerado ministro da Economia de Bolsonaro, defende que livros sejam taxados pois, para ele, somente ricos seriam leitores no Brasil. Inclusive já comentei amplamente sobre esse assunto aqui na coluna, demonstrando que dados revelam como pessoas periféricas também são leitoras. Mas voltemos ao aspecto cirandeiro do desafio. É lúdico? Sim! É decisivo para o resultado das eleições? Não! Mas, sem dúvida, é uma demonstração divertida de quem é mais favorável aos livros do que as armas, tão defendidas pelo bolsonarismo.

E, em tempos de tanto ódio e violência, é um meme inofensivo. Além disso, para os jovens militantes de esquerda que destilam etarismo ao comentar sobre como é “boomer” a ideia deste desafio, lembro que Lula tem 76 anos e seu oponente, Bolsonaro, 67. Portanto, os mesmos jovens que debocham dos “tiozinhos que ouvem jazz em livraria”, votarão no candidato mais idoso para presidente. É, no mínimo, um contrassenso. 

Sejamos alegres!

Portanto, vai aqui minha singela defesa à alegria da esquerda cirandeira. Seja com livros, memes, músicas ou cirandas: temos direito à felicidade!

Desejo um bom voto aos leitores e leitoras neste dia 2/10. E que tenhamos muitos motivos para celebrar!

Imagem: Facebook / Reprodução

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br