Tenho vivido em distanciamento social relativamente rígido desde março de 2020. Îsso, claro, graças ao privilégio de poder trabalhar de forma remota nas minhas funções como produtora cultural e jornalista. Depois de quase um ano sem ir a locais com aglomeração de pessoas em razão da pandemia, fui convidada por uma amiga a ir na manifestação “Fora Bolsonaro”,  neste sábado, dia 23.  Após essa provocação, fiquei durante um tempo refletindo sobre a possível incoerência entre defender o distanciamento social e sair de casa para um protesto.

Cheguei à conclusão que eram atividades essenciais (e urgentes):

Pressionar para tirar do poder um presidente que demonstra tamanho descaso na condução de uma pandemia.
Sair às ruas para demonstrar a insatisfação com a falta de organização para vacinar a população. 
Lutar para o retorno do auxílio emergencial já que milhares de pessoas passam fome com o fim do benefício, 

Com isso em mente, resolvi comparecer ao protesto, ainda que a convocação tenha sido para uma carreata e eu indo a pé, por não ter carro. Os organizadores do ato em Porto Alegre contabilizaram a adesão de pelo menos 1 mil veículos, que se concentraram no Largo Zumbi dos Palmares para depois percorrerem as ruas de diferentes bairros da capital gaúcha. Os protestos, em forma de carreatas, foram realizados em dezenas de cidades brasileiras e na maioria das grandes capitais.

Uma avaliação pessoal do protesto

Em Porto Alegre, os pedestres, como eu, ficaram no local da concentração. Posso garantir que a quantidade de carros era realmente grande. Porém, não sei se o número total de adesão chegou a 2 mil veículos, como vi em algumas postagens mais otimistas nas redes sociais. Mas, ao contrário do que afirmam os defensores de Bolsonaro, o protesto não era apenas de partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais. Havia muitos idosos dentro dos veículos e pessoas ostentando cartazes visivelmente improvisados. O que, na minha opinião, é uma comprovação do quão genuíno é o sentimento de revolta de parte da população com o presidente da República e seu governo repleto de incompetência, desorganização e desprezo pela vida humana.

Haverá resultados?

Voltei para casa satisfeita por ver tanta gente engajada na luta por exigir a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro. A pressão surtirá efeito no Congresso Nacional? Sinceramente, não sei. Se a opção por carreatas foi elitista, conforme vi algumas pessoas de esquerda comentando, também não consigo avaliar com exatidão. Acredito que tenha sido a alternativa mais segura neste momento para demonstrar insatisfação com o governo. Ainda que tenha sido, de certa forma, excludente para quem, como eu, é pedestre e não pôde acompanhar a manifestação em sua integralidade.

Distanciamento social precisa continuar

Afora necessários protestos e saídas essenciais para comprar comida, por exemplo, aconselho, a quem puder, que prossiga em distanciamento social. Considero ser a atitude mais sensata, enquanto a vacinação não for realizada em massa no Brasil. Mesmo que quem mantenha-se em casa, seja taxado de radical, medroso ou exagerado. Os adjetivos são muitos e podemos colocar nessa lista também o termo “comunista”, mesmo que a quarentena tenha sido recomendada em países onde os governos estão muito longe do espectro político de esquerda.

Aos resilientes do distanciamento social

Como incentivo aos que permanecerão em casa por muito tempo com o compromisso pessoal de evitar a propagação do coronavírus, recomendo a leitura do e-book gratuito Porto Alegre em Quarentena. A obra é uma coletânea com o registro poético dos primeiros meses da pandemia, a partir do olhar de escritores que moram na capital do Rio Grande do Sul. São diferentes estilos e temáticas diversas. 

Porto Alegre em Quarentena

A diversidade presente na obra é um registro histórico do ano que passou. O conteúdo varia desde a sensação em si de isolamento, até temas sociais urgentes que vieram à tona nos últimos meses, como a luta antirracista. Na apresentação do livro, os organizadores Camilo Mattar Raabe e Diego Grando comentam: “Os poemas aqui reunidos formam, enfim, um retrato de um tempo e de uma cidade: um 2020 que corre estranho, uma Porto Alegre onde estamos sem estar.”

Um poema para encerrar

Entre todos os poemas, destaco Disperato Incantabile – Afflito ma non troppp de Diego Grando, por reflitir o espírito dessa pandemia sem fim:

“lorem ipsum fecha a porta / tem miojo no jantar / nostradamus / vós travais / eles trovam por wi-fi / quem tem boca fica em casa / não tem cão caça com live / pandeguices / isquemias / esqueminhas confirmados / rivotril no dry martini / gardenal com aperol / hoje a rave clandestina é num galpão em ivoti / lorem ipsum segue o baile / vai à merda e volta atrás / como lidar / em tempos de / seno b cosseno a / cloroquina mon amour / no dos outros é refresco / quem furar o isolamento / não vai preso no quartel / vem roçar essa mãozinha / marinada em álcool gel / vem roçar na minha tela / ou eu faço um escarcéu / lorem ipsum vai no super / estocar papel higiênico / tem entrega que é do bem / tem delivery do mal / tomar sol na basculante / já virou lugar-comum / tomar água do chuveiro / não é novo nem normal / dormir cedo / acordar tarde / dormir tarde / acordar cedo / google meet / zoom zoom zoom / não passou um avião / lorem ipsum coisa e tal”

Para baixar o livro, de forma gratuita, clique aqui. Mais detalhes sobre a obra podem ser conferidos em matéria do site Literatura RS.

Imagens: Facebook / Reprodução

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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