O Dia dos Namorados como data comercial é uma criação publicitária de grande sucesso, desde 1949. Naquele ano, o pai do governador de São Paulo, João Dória, foi o responsável pelo lançamento de uma campanha para aumentar as vendas em junho. Então, produziu o slogan  “Não é só com beijos que se prova o amor”. Pelo jeito, era um publicitário que entendia mesmo de estratégias de consumo, já que até hoje, em pleno 2021 da pandemia, a comemoração segue firme e forte.

Agora, sejamos justos. Não há nada de errado em termos um dia especial para celebrar todas as formas de amar. Particularmente, acho louvável quando as marcas fazem campanhas que buscam combater preconceitos, mostrando, por exemplo, casais LGBTs. negros  e interraciais.

Dia dos Namorados é um problema?

Porém, a lógica capitalista embutida por trás da celebração nem sempre é conscientemente percebida pelo público. Afinal, somos bombardeados, por todos os lados, com anúncios que visam incentivar o consumo acima de tudo. Além disso, às vezes a falta de um presente considerado adequado pode gerar brigas. Provavelmente, porque a publicidade massiva contribui para uma expectativa grande em relação à demonstração de amor. Ganhou um anel de brilhantes? Amor eterno. O parceiro não lembrou nem da data? Relacionamento falido.

Mentes consumistas

No entanto, a verdade é que relações amorosas são muito mais complexas do que uma mera troca de presentes. Por isso, é perverso vincular amor a consumo, mas esta é a essência da sociedade capitalista na qual vivemos.  Quem tiver interesse em buscar uma visão mais crítica sobre o assunto, sugiro a leitura da obra Mentes Consumistas, escrito pela psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva.  A autora destaca a dualidade entre ser e ter: 

“Na sociedade consumista, o modo ser de existir é desestimulado de todas as maneiras, pois ser não demanda consumo nem a obtenção de lucro. Uma pessoa satisfeita com sua aparência, com seu ofício, com seus afetos e seus valores éticos não necessita consumir (de forma abusiva e/ou compulsiva) cosméticos, cirurgias plásticas, […]  Numa sociedade como a nossa, aprendemos, desde muito cedo, a paixão pelo ter; a competitividade que faz do colega um inimigo em potencial; o egoísmo que leva ao querer ter de forma exclusivista; a não partilhar; a não se importar… Enfim, a ser quase nada, mas com uma “embalagem” de ser humano amável, equilibrado, sorridente e muito produtivo. Viver essa dualidade constante entre o ser e o ter, mesmo que de forma inconsciente, contraria o próprio código genético da espécie humana, pois, como seres sociais, somos totalmente dependentes das nossas relações interpessoais para nos desenvolvermos como indivíduos e como espécie.”
Partilhar momentos e afetos

Sendo assim, considero que o mais importante é celebrar o Dia dos Namorados (e todos os outros dias do ano) partilhando afeto e momentos especiais com a parceria de vida. Além disso, não é necessário ser especialista em finanças para dizer que, caso o orçamento doméstico esteja apertado, não há necessidade de endividar-se para impressionar ou agradar o cônjuge. No entanto, se tem um dinheiro disponível para isso, pense onde comprar. Optar pelo comércio local e por pequenos empreendedores é uma forma consciente de consumo, hoje e sempre. Além disso, se puder distribuir afeto para mais gente, existem diversas iniciativas ajudando a quem precisa nesse triste momento de crise econômica e sanitária no país.  Até porque,  como garante Ana Beatriz Barbosa Silva, a solidariedade é inerente aos seres humanos, basta nos desprendermos dos valores capitalistas (e consumistas):

“[…] a cultura do ter, dominante em nossa sociedade consumista, influencia de maneira intensa e persuasiva nossa inteligência para que sejamos capazes de “tapear” a nossa natureza solidária, a fim de nos tornarmos peças eficientes em manter o sistema econômico vigente em pleno funcionamento. Com nossa inteligência “entorpecida”, vamos quase que roboticamente nos tornando consumidores contumazes, insaciáveis e com sentimento constante de ansiedade e insatisfação.”

Para quem busca opções de consumo consciente e com viés antifascista ainda para o Dia dos Namorados e em outras datas, uma boa sugestão é a página Esquerda Compra da Esquerda. Surgido em 2020, o grupo privado de vendas no Facebook já conta com mais de 164 mil membros. 

Imagem: Wichai Bopatay/Pixabay

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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