“Um escritor grego disse que a democracia só funciona quando os ricos se sentem ameaçados. Caso contrário, a oligarquia toma o poder.”

 

Essa frase de Democracia em Vertigem ficou na minha mente durante dias. Não só pelo conteúdo contundente, mas pela curiosidade gerada ao não citar o nome do autor, um detalhe pequeno em meio a um documentário que tem gerado tanta controvérsia.  Petra Costa, diretora e roteirista do filme, tem enfrentado críticas da própria esquerda ao fazer uma análise bem pessoal sobre a política brasileira. 

Mas aquela frase havia virado uma obsessão pessoal. Eu precisava descobrir sua autoria, movida pela pura e simples curiosidade.

Em um primeiro momento, achei que seria fácil descobrir a origem da citação. Só jogar no oráculo Google e pronto. Ledo engano. Não havia referências claras a partir das palavras usadas na locução em off. Depois fui para as redes sociais e perguntei para meus amigos se alguém sabia identificar a autoria. Ninguém se arriscava a dizer. Perguntei para formados em Filosofia, Ciência Política,  Comunicação… Nenhuma resposta conclusiva.

Então prossegui nas minhas pesquisas solitárias na Internet, tentando achar alguma conexão da Grécia Antiga com a reflexão sobre a democracia precisar ser temida pelos mais favorecidos economicamente para realmente funcionar como sistema político. E fui me deparando com informações interessantes para conectarmos com o Brasil atual.

Filósofos como Sócrates e Platão, por exemplo, eram grandes críticos da Democracia. Isso me surpreendeu, apesar de saber o quanto a democracia grega se diferenciava  do modelo democrático atual, ao não incluir como eleitores mulheres, estrangeiros e escravos, por exemplo. Porém, não deixa de ser interessante que grandes filósofos considerassem a aristocracia um regime político mais adequado. 

Mas foi nas pesquisas sobre os grandes defensores da democracia grega clássica que deparei com informações mais curiosas. Sólon, um dos legisladores mais famosos de Atenas, promoveu, a partir de 594 a.C., mudanças estruturais como o fim da escravidão por dívidas. Porém, enfrentou críticas tanto dos mais ricos, que não gostaram das alterações propostas, quanto dos mais pobres, que defendiam medidas como a  reforma agrária para ter uma sociedade mais igualitária.

No século V a.C., o estadista Péricles foi acusado de populista ao favorecer quem tinha menos dinheiro. Entre suas medidas consideradas populistas, estava a de proporcionar aos pobres entrada gratuita para espetáculos teatrais em Atenas, com o Estado bancando os ingressos. Além disso, tentou colocar em prática leis que favoreciam o acesso das classes mais baixas ao sistema político democrático, o que era proibido por questões financeiras.

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Resumindo:

A luta de classes (acusada por conservadores atuais de de ser uma “invenção marxista”) já existia na Grécia Antiga e filósofos como Sócrates e Platão eram críticos da democracia justamente por considerá-la um regime político propenso a esse tipo de tensão entre ricos e pobres. Políticos que tentavam ajudar os menos favorecidos eram acusados de populistas (Eram? São?). E os ricos tentavam manter seus privilégios, como sempre.

O escritor grego – ainda desconhecido para mim – citado em Democracia em Vertigem,  parece ter mesmo razão. 

Encerro esse texto com a citação completa de Petra Costa e torcendo para que encontremos esperança em meio à vertigem:

Um escritor grego disse que a democracia só funciona quando os ricos se sentem ameaçados. Caso contrário, a oligarquia toma o poder. De pai pra filho, de filho pra neto, de neto pra bisneto e assim sucessivamente. Somos uma república de famílias. Umas controla as mídias, outras, os bancos. Elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro. E, de vez em quando, acontece delas se cansarem da democracia, do Estado de Direito. Como lidar com a vertigem de ser lançado em um futuro que parece tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmos?”

Foto: Netflix/Divulgação

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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