EXISTÊNCIA?

A existência me negou dotes próprios 

Não pude ser ofertada 

Nem fui notada 

Precisei parir-me para ser alguém 

Quebrei cascas 

Troquei de peles 

Fui além. 

Convenci-me de que para algo haveria de servir 

Pois que para tudo há um propósito, alguém me disse 

E travestida de ilusões 

Pude então seguir. 

O texto acima é de autoria de Dani Espíndola e integra o recém-lançado e-book Tanto fiz que deu poema, lançamento independente que pode ser baixado gratuitamente. A escrita surgiu de forma intensa na vida da autora depois de ser diagnosticada com Covid-19, no início da quarentena no Brasil, como relatei na coluna Voos Literários em 15 de agosto de 2020.  No total, o livro tem 30 poemas, acompanhados de uma seleção de obras de arte que “conversam” com a escrita da autora. 

UM MERGULHO NA POESIA E NAS ARTES VISUAIS

No poema Existência?, por exemplo, a obra escolhida pela autora é Retrato de Maude Abrantes, do artista italiano (radicado na França) Amedeo Modigliani. Pois o quadro em questão é de 1908, porém só uns 100 anos depois é que especialistas descobriram que o pintor havia usado a mesma tela para, anteriormente, pintar uma mulher nua, de chapéu. O curioso é que Modigliani não apenas fez outro retrato por cima, ele virou a tela de cabeça para baixo. Como se quisesse, talvez, mudar seu ponto de vista a respeito daquela figura feminina, que se tornaria uma de suas obras mais famosas. Descobri essa curiosidade na pesquisa para escrever o post e não sei se Dani Espíndola sabia dessa história ao escolher justamente esta pintura do artista plástico.

Ao acabar a leitura do livro, concluo que este acaba sendo mais um mérito de Tanto fiz que deu poema. Além de nos ofertar (gratuitamente) poesia de qualidade, a autora ainda instiga o leitor a querer saber mais sobre o mundo das artes visuais, no jogo de procurar entender o nexo entre texto e imagem. 

O livro Tanto fiz que deu poema pode ser baixado aqui.

Imagem: Capa do livro/Divulgação

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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