“Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo.”

Bolsonaro, Jair, em janeiro de 2020.

A frase do excelentíssimo presidente da República refere-se a livros didáticos distribuídos em escolas públicas. Porém, essa declaração acaba podendo ser aplicada de forma mais abrangente no que se refere a ações do atual governo, com evidentes demonstrações de falta de apreço à Cultura. 

Bolsonaro deveria ler mais para, por exemplo, ampliar seu parco vocabulário. O mesmo pode se dizer a respeito do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que volta e meia assassina a norma culta e escreve com erros de ortografia (o último foi “imprecionante), o que pode (e deve) ser perdoado em pessoas com menos escolaridade mas que não pode ser considerado normal em alguém em um cargo como esse.

Dia do Leitor

Em 7 de janeiro, comemora-se no Brasil o Dia do Leitor, esse ser incompreendido por Bolsonaro, que gosta de livros “com muita coisa escrita” e considera a leitura uma atividade lúdica.  Porém, nem sempre podemos nos refugiar no terreno prazeroso da ficção. Pois 2020 começou com um conflito entre Estados Unidos e Irã, uma tensão que deixa o mundo inteiro em alerta. Para os leitores que dedicam seu tempo a informar-se através da imprensa, nem sempre há um relato mais aprofundado sobre o que ocorre no Oriente Médio e sua relação com o governo norte-americano. (No Jornal da Globo, a apresentadora chegou a comentar que seria interessante explicar para os telespectadores detalhes sobre a Revolução Iraniana de 1979 “porém não havia tempo para isso”).

Por essa razão, fiz uma seleção de 5 livros para tentar entender melhor um tema tão complexo:

O Xá dos Xás – Ryszard Kapuscinki

Sinopse: Nos anos 1950, com o repentino aumento do preço do petróleo, o Irã embarcou em um extraordinário processo de modernização. Foram importados armamentos, carros, aviões, tudo o que para o xá era sinônimo de desenvolvimento. Em 1979, no entanto, seu projeto de “Grande Civilização” ruiu: sob o impacto de manifestações populares e a pressão dos religiosos xiitas, o reinado despótico de Mohammed Reza Pahlevi chegou ao fim. Para narrar o processo de ascensão e queda do último xá do Irã, Kapu’sci’nski lança mão de uma técnica mista, em que entram narrativa histórica, crônica jornalística e escrita de ficção. Sem entrevistar representantes do novo governo ou adentrar o palácio onde viveu o xá, o autor busca no homem comum o significado profundo da cultura, da religiosidade e da revolução iraniana. Nesta brilhante cobertura, o jornalista-escritor põe em prática sua convicção de que “todos os livros sobre as revoluções […] deveriam começar com um capítulo com tons psicológicos, em que se descrevesse o momento em que um homem sofrido e apavorado repentinamente derrota o terror; o instante em que ele deixa de sentir medo”.

A Crise no Islã – Bernard Lewis

Sinopse:  Bernard Lewis examina as raízes históricas do ressentimento que uma parcela dos adeptos do islamismo nutre com relação ao que qualifica como “mundo infiel”. Partindo da fundação da religião muçulmana pelo profeta Maomé, o autor traça, de maneira crítica, uma linha do tempo que percorre a era dos califas, o Império Otomano, a ameaça representada pelos cruzados, a dominação colonial europeia e a intensificação dos conflitos entre Oriente e Ocidente nos últimos tempos. Em texto sucinto, Lewis concentra-se em particular nos acontecimentos do século XX que estão na origem dos violentos confrontos atuais: a formação do Estado de Israel, a Guerra Fria, a Revolução Iraniana, a Guerra do Golfo e o 11 de setembro. A crise do Islã interpreta a ascensão da doutrina wahhabi (fundada no século XVII e que prega o retorno ao islã “puro” e “autêntico” de Maomé) como forma de deturpar e manipular o comportamento religioso tradicional na região. O espelho do fundamentalismo radical não é necessariamente a sociedade ocidental, diz o autor, mas todos aqueles que se abrem para o estilo de vida moderno e as tradições democráticas. Como política e religião são inseparáveis no islamismo, não é de estranhar que jovens muçulmanos se mostrem tão ansiosos por cumprir a obrigação da jihad (ou “guerra santa”) e se submetam até ao suicídio em nome da fidelidade ao passado.  “Admiravelmente sucinto. Fornece uma visão ampla, em meio a tanto imediatismo e eruditismo confuso. Lewis nos prestou a todos, muçulmanos e não-muçulmanos um serviço inestimável.” The New York Times Book Review “Uma contribuição oportuna e provocadora ao atual debate sobre as tensões entre os mundos ocidental e islâmico.” Business Week”Inestimável.  Repleto de insights históricos excepcionais, presumíveis em um dos principais estudiosos do islamismo.”  The Wall Street Journal

A Revolução Iraniana – Osvaldo Coggiola

Em uma região conturbada desde tempos imemoriais, o Irã da segunda metade do século XX honra a tradição e abriga situação explosiva: uma monarquia, autointitulada herdeira dos vetustos imperadores persas, debate-se, espremida entre a autocracia, a corrupção e os anseios modernizadores. Completando o quadro dramático, a presença crescente do fundamentalismo islâmico e a não disfarçada intervenção das potências ocidentais – sempre obcecadas pelas enormes reservas petrolíferas do país – acarretam a tensão geopolítica prenunciadora de típicos cenários contemporâneos.

A “revolução dos aiatolás” é, assim, exemplar. Mais do que conflito localizado, é fruto das variáveis definidoras de nossa época e expõe os perigos e os desafios que enfrentamos.

O Enigma da Revolta: Entrevistas Inéditas sobre a Revolução Iraniana – Michel Focault

Sinopse:  Caso você esteja em dúvida se já leu essas entrevistas de Michel Foucault a respeito da revolução iraniana, podemos reassegurar: a resposta é não. Elas não foram incluídas nos Ditos e Escritos, pois apareceram só em 2013, em árabe, e em 2018, parcialmente, numa revista francesa. Assim, são conversas em tudo inéditas. Tiveram que esperar mais de três décadas para se tornarem acessíveis ao público em geral. Seu interesse é duplo. Por um lado, depois de toda a celeuma provocada pelas “reportagens de ideias” escritas por Foucault por ocasião de suas duas viagens ao Irã, em 1978, o filósofo esclarece o sentido de seu interesse pela sublevação iraniana, desfazendo mal-entendidos, desinformações e malevolências (de que ele teria apoiado a implantação da teocracia!). Por outro lado, nelas esclarece sua concepção de revolta, sublinhando que expor-se à morte é um gesto irredutível a qualquer explicação histórica. Ademais, fala sobre o que entende por “espiritualidade política”, dando à expressão um sentido particular, mais vinculado à experiência da modificação de si (“tornar-se outro do que se é”) do que à instituição religiosa. Portanto, mais aparentada a Bataille, Blanchot e Ernst Bloch do que à visão de um aiatolá. Nessas conversas tocantes, temos acesso às ideias de Foucault na época sobre a natureza da resistência, do poder, da vontade, da religião, da experiência, do sujeito, sobre Sartre, os “novos filósofos” – de golpe, é todo um panorama mental que se descortina, de uma riqueza e atualidade extraordinárias. De quebra, um belo ensaio de Christian Laval fecha este livro instigante, organizado por Lorena Balbino.

Persepólis – Marjane Satrapi

Sinopse:  Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.
Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.
Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama – e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.

Imagem:  Pavel Karásek/Pixabay
Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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