A CPI da Pandemia pode desgastar ainda mais a imagem do presidente Jair Bolsonaro ao longo dos próximos meses. A investigação sobre omissões e erros do governo federal no combate à disseminação do coronavírus parece ser um trabalho bastante fácil para os parlamentares. Pois apesar de irritado com a instalação da CPI, Bolsonaro segue querendo “mitar” nas redes sociais e em declarações públicas. Sua crença, ainda inabalável, é de que sairá impune e com popularidade da crise sanitária e econômica gerada pela pandemia.

Nem é preciso investigar

De cara, percebemos que as provas da má conduta do presidente e de seu governo são evidentes. Aposta reiterada no anticientífico tratamento preventivo da covid. Falta de planejamento compra de vacinas em 2020.  Testagem baixíssima da população brasileira. Além disso, Bolsonaro desdenhou das mortes. Minimizou os riscos da doença.  Promoveu constantes aglomerações e questiona o uso de máscaras.

Para seus seguidores, todos esses atos são justificáveis e o capitão Messias segue sendo o mito. Porém, até quando terá essa força política e apoio popular?

Mito?

A origem do apelido de Bolsonaro vem mais da Internet do que do sentido original do termo. Nas redes sociais, “mitar” significa fazer comentários polêmicos e que chamam a atenção. É o que constantemente o presidente faz com a imprensa, por exemplo. Afinal, o mito não gosta de perguntas que considera inconvenientes. Porque, obviamente, um mito quer ser apenas idolatrado.

E para muitos de seus apoiadores, Bolsonaro é uma espécie de herói antissistema. Ao colocar como inimigos o STF, a mídia, a esquerda, os artistas, os professores e o Congresso Nacional, se transforma em mártir. Ao mesmo tempo, se blinda das críticas desses setores, pois é um perseguido por não aceitar o jogo de seus opositores. Mas o que transforma alguém em um herói? 

Coragem e falta de rancor

Para Joseph Campbell, mitologista e escritor norte-americano, o herói é “aquele que participa corajosa e decentemente da vida, no rumo da natureza e não em função do rancor, da frustração e da vingança pessoais.” Na obra  O Poder dos Mitos, o especialista descreve em diferentes trechos a figura heróica, presente nas mitologias e no dia a dia contemporâneo:

“Há dois tipos de proeza. Uma é a proeza física, em que o herói pratica um ato de coragem, durante a batalha, ou salva uma vida. O outro tipo é a proeza espiritual, na qual o herói aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual humana e retorna com uma mensagem.”

Por mais boa vontade que eu pudesse tentar ter com um líder incompetente como Bolsonaro, não consigo enxergar em sua atuação nada que o faça um herói ou “mito”. Sendo assim, minha esperança é que a CPI da Pandemia se encarregue de expor seus erros de forma eficiente, ao ponto de fazê-lo perder sua base fiel de seguidores. Contudo, como acontece com ídolos de diferentes segmentos, a emoção vai além da razão. E, caso não seja punido devidamente, ainda corremos o risco de uma reeleição.

#forabolsonaro

Imagem: Isac Nóbrega / Site Fotos Públicas 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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