Sempre que alguém defende a volta da ditadura militar no Brasil alegando que naquela época não havia corrupção, me dá um frio na espinha. Pela ignorância ou pelo oportunismo da afirmação. Hoje, sabe-se que censura à imprensa foi uma das formas de garantir essa imagem de integridade associada aos governos militares. Aos eventuais nostálgicos daquele período que estiverem me lendo, recomendo informarem-se com essa matéria do UOL e também com a visita ao site Memórias da Ditadura.

Para reflexão literária, Tambores Silenciosos, do gaúcho Josué Guimarães, é um alerta de como a censura é um verdadeiro abuso de poder por parte das autoridades. No romance, situado na cidadezinha fictícia de Lagoa Branca, o prefeito resolve impedir que os moradores tenham acesso a jornais e a ouvir rádio, para que sejam mais felizes. O enredo é situado em 1936, época que antecede a implantação do Estado Novo de Getúlio Vargas.

O trecho a seguir mostra o diálogo do professor Ulisses com seus alunos, após ameaças veladas do prefeito contra o educador:

“[…] eu sei, meus filho, eu sei disso, estou fazendo o possível, estive mais de uma vez com Coronel João Cândido e o homem me pareceu meio inconseqüente, ele tem um bom coração, mas a cabeça não deve estar regulando bem, meteu dentro dela algo estranho, chegou a me dizer que estava decidido a tornar a gente desta cidade feliz por bem ou por mal; eu disse a ele que por bem, eu entendia, mas que por mal eu nunca tinha visto ninguém fazer outra pessoa feliz; e sabem o que ele me respondeu? Que respeitava muito a minha pessoa, contava comigo para o êxito de seu trabalho na prefeitura, mas que eu ficasse no meu lugar, ensinando os meus meninos e que deixasse de lado o seu plano de tornar Lagoa Branca uma cidade feliz como não havia outra no mundo.”

Os personagens que resolvem não seguir os desmandos do prefeito, são presos e torturados. Na conclusão do romance, há um boicote à Semana da Pátria por parte dos estudantes, que começam uma protesto apoiado pelas crianças e idosos da cidade. O prefeito acaba deposto pela população e se suicida.

Na vida real, Josué Guimarães enfrentou muitos percalços e ameaças de censura para conseguir lançar esse livro, no fim da década de 1970, antes do fim do regime militar no país. A obra recebeu prêmios e é um brado pela liberdade de expressão do povo. Altamente recomendável na atual conjuntura sociopolítica brasileira.

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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