“Se os velhos manifestam os mesmos desejos, os mesmos sentimentos, as mesmas reivindicações que os jovens, eles escandalizam. […] A imagem sublimada deles mesmos que lhes é proposta é a do sábio aureolado de cabelos brancos, rico de experiência e venerável. Se dela se afastam, caem no outro extremo: a imagem que se opõe à primeira é a do velho louco que caduca e delira e de quem as crianças zombam.”

A Velhice, de Simone de Beauvoir

É raro haver tanto destaque nos noticiários a respeito dos idosos como está acontecendo nesse momento de pandemia. O motivo não é positivo. Uma das razões – a mais grave – é o fato de pessoas acima de 60 anos estarem dentro do grupo considerado de risco entre os pacientes do coronavírus. Mas o fato de supostamente o vírus ser mortal apenas para idosos e pacientes com doenças preexistentes fez com que o presidente Jair Bolsonaro e parte dos grandes empresários minimizassem a importância do isolamento social horizontal e defendessem o chamado isolamento vertical (que colocaria novamente os mais velhos na  berlinda, sendo eles que deveriam ser apartados do convívio com os jovens, que teriam menos risco ao se infectar). Os fatos vem contrariando a hipótese defendida por bolsonaristas. Informações divulgadas pela imprensa apontam que a proporção de mortos com menos de 60 anos era de 11% em 27 março e subiu para 25% nos últimos dias. 

IDOSOS ALVO DE MEMES

Além disso, logo que começou a recomendação de isolamento social, supostamente os idosos seriam os mais resistentes ao fato de não poderem sair de casa. O estereótipo do velho infantilizado e sem capacidade intelectual para compreender a gravidade da situação generalizou-se como regra, inclusive em memes na Internet. 

Mas será que somente idosos estão entre os negacionistas? As imagens dos noticiários e redes sociais mostrando pessoas nas ruas revelam diferentes faixas etárias, incluindo jovens famílias com filhos pequenos. Parece que o grave problema de saúde pública que estamos vivendo gerou, mais uma vez, o preconceito com os mais velhos.

TODAS AS VIDAS IMPORTAM

Simone de Beauvoir já alertava para o “silêncio” relacionado aos idosos no livro A Velhice publicado em 1970, como se eles estivessem fora da humanidade. Cinquenta anos depois, no Brasil, podemos observar a relativização da importância das mortes dos mais velhos devido ao coronavírus, como se algumas vidas valessem menos do que outras. Simone observa uma tendência a enxergar os idosos como um refugo, principalmente quando não são mais economicamente ativos:

“Os velhos que não constituem nenhuma potência econômica não dispõem de recursos para fazer valer seus direitos: os empresários têm todo interesse em destruir a solidariedade entre trabalhadores e inativos de modo que estes não sejam defendidos por ninguém.”

A reforma da Previdência e a tendência a considerarmos os aposentados um fardo a ser carregado pelos trabalhadores é outra falácia a ser combatida no Brasil do século 21. Simone de Beauvoir já alertava para esse fato lá na década de 1970. Agora, em um 2020 transformado por uma pandemia, é necessário revisarmos os valores vigentes. E o amor, a compaixão e o respeito aos mais velhos precisam ser colocados em prática, em uma visão mais humanista que precisamos desenvolver em um momento tão difícil.

Imagem: Free-Photos/Pixabay

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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