No início de março, decidi abordar a importância do feminismo a partir de algumas leituras. O principal motivo era o fato deste ser o mês em que a luta das mulheres ganha mais visibilidade. Ao contrário de anos anteriores, esse 2020 caracteriza-se por uma pandemia de proporções assustadoras. Como não podia deixar de ser, o teor dos textos da série “Feminismo Para Quê”, que começaram leves, falando sobre divisão de tarefas domésticas, passaram pelo questionamento de quem mandou matar Marielle Franco, acabaram também tratando sobre o avanço do coronavírus no Brasil e seus desdobramentos sociopolíticos. No texto anterior, falei um pouco sobre a sororidade e desigualdade social em meio à quarentena imposta para evitar a disseminação do coronavírus no Brasil.

Enquanto escrevo o último post desta série sobre feminismo, ouço um buzinaço provocado por uma carreata que passa pelo meu bairro em Porto Alegre (RS), pedindo que empresas de serviços não-essenciais sejam reabertas para evitar prejuízos econômicos, ignorando orientações da Organização Mundial da Saúde. É nesse cenário vergonhoso onde o dinheiro vale mais do que vidas, que proponho pensarmos sobre a luta de classes e a sua relação com o feminismo.

Antes disso, considero importante pontuar que como as mulheres são diferentes entre si, existem muitos feminismos. Para fundamentar os aspectos teóricos desse texto, usei como  base o livro Feminismo e Consciência de Classe no Brasil, de Mirla Cisne. A autora comenta sobre três correntes do feminismo: feminismo radical, socialista e liberal:

“A oposição politicamente mais frontal, […] ‘recai sobre as feministas liberais, de um lado, e feministas radicais e socialistas, de outro’. O feminismo liberal consiste nos movimentos voltados à promoção dos valores individuais, buscam reduzir as desigualdades entre homens e mulheres por meio das políticas de ação positiva, e, por isso, podemos falar de um “feminismo reformista”. […] O feminismo socialista ou tendência da luta de classe, como se denomina na França, afirma que ‘a verdadeira liberação das mulheres só poderá advir de um contexto de transformação global’, enquanto as feministas radicais ‘sublinham que as lutas são conduzidas, antes de tudo, contra o sistema patriarcal e as formas diretas e indiretas do poder falocrático’.

Pois é a partir da visão do feminismo socialista que considero interessante pensarmos no que vivenciamos atualmente no Brasil. Enquanto parte dos empresários se organiza em ações solidárias, o governo federal, principalmente nas figuras do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes, alia-se ao empresariado que defende um discurso que minimiza a gravidade do Covid-19. De acordo com essa visão, “algumas” mortes são o preço a se pegar para manter a economia aquecida.

Para evitar uma recessão, a ideia é de que empresas voltem a operar normalmente, ignorando que lotar o transporte público para que os funcionários retomem seus trabalhos fará com que a proliferação do coronavírus possa atingir grandes proporções. Para não agravar a crise, os trabalhadores que hoje encontram-se em quarentena devem expor-se ao risco, sem ter certeza se estão ou não contaminados, já que os poucos testes gratuitos disponíveis no país atualmente são reservados para quem apresentar sintomas graves ou trabalhar em áreas como da saúde. Enquanto isso, os grandes empresários seguirão resguardados e, caso tenham dúvidas sobre estarem infectados, poderão tranquilamente ir em um hospital particular e pagar por todo o atendimento. Isso é a luta de classes, por mais que insistam em dizer que o termo está obsoleto ou é apenas uma invenção comunista. 

Nesse sentido, destaco um trecho do livro  Feminismo e Consciência de Classe no Brasil com o depoimento de uma integrante da Marcha Mundial das Mulheres que aponta as estreitas ligações entre o feminismo e o combate à pobreza e à desigualdade social:

“É importante lutar não só pela igualdade entre homens e mulheres, mas igualdade entre as pessoas e os povos […] há que ter igualdade entre homens e mulheres, mas há também que acabar com a pobreza, com a miséria… é muito imbricado essa coisa da luta de classe com o feminismo.”

Como sabemos, a pobreza e a miséria existem no Brasil muito antes do surgimento da pandemia. Mas o abismo existente entre os milionários e os favelados escancara-se ainda mais em meio a um gravíssimo problema de saúde pública. Caberia ao governo federal cuidar de todos os brasileiros, independente de gênero, renda, raça, orientação sexual ou idade. Na segunda-feira (30), o Senado votará um projeto com a concessão de uma renda básica de no mínimo R$ 600,00 para desempregados, trabalhadores informais e microempreendedores durante o período de enfrentamento do coronavírus no Brasil. Para mulheres chefes de família, o valor sobe para R$ 1.200. A iniciativa é louvável e espero que seja aprovada pelos senadores. Porém, pelo governo federal o benefício não ultrapassaria R$ 200,00, um valor muito abaixo do aceitável para uma família sustentar-se. 

Precisamos seguir na luta feminista, que inclui nesse momento o direito de ficar em quarentena, para não sermos contaminados por uma doença que já matou milhares de pessoas no mundo. Assim, também evitaremos  colapso nos atendimentos feitos através do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Se puder, fique em casa!

Imagem: Marcha Mundial das Mulheres/ Reprodução: Facebook (

Imagem meramente ilustrativa, agora o momento é de ficar em casa e não de ir para as ruas.)

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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