Não costumo falar de lançamentos literários nesse espaço, por julgar que outros canais já fazem esse trabalho. Porém, na caso da biografia Júpiter Maçã: A Efervescente Vida & Obra (Plus Editora), assinada pelos jornalistas Cristiano Bastos e Pedro Brandt, tive que abrir uma exceção. 

Primeiro porque um dos autores, o Cristiano, foi meu colega de faculdade, lá na Famecos-PUCRS, onde tivemos aulas junto com figuras como o Carlinhos Carneiro (Bidê ou Balde e Império da Lã) e Chico Bretanha (Groove James e Império da Lã), antes mesmo dessa dupla dedicar-se à música. E os dois estavam entre os participantes de um baita show organizado no Bar Ocidente para um dos eventos de lançamento da biografia de Júpiter Maçã.  

Também contribuiu o fato de que o Cristiano é um biógrafo muito competente, vide seu trabalho memorável em Gauleses Irredutíveis (em parceria com Alisson Avila e Eduardo Müller) e Julio Reny – Histórias de Amor e Morte (Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria especial). Por fim, mas não menos importante, está o fato do livro sobre esse  o multifacetado cantor, compositor e multi-instrumentista ser o primeiro lançamento da Plus Editora, uma iniciativa nova mas que tem entre seus sócios, pessoas com muita experiência na área cultural, como Roger Lerina e Roque Jacoby.

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Nas conversas que tive online com o Cristiano Bastos para concretizar esse post, fiquei sabendo em primeira mão, como se fala no jargão jornalístico, de uma nova biografia escrita por ele, a ser lançada pela Plus Editora no ano que vem

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O biografado será Nelson Gonçalves, gaúcho de Santana do Livramento, que completaria 100 anos em 2019 e o livro ainda não tem título definitivo mas pode chamar-se Metralha (com subtítulo ainda não definido) ou A Vida de Nelson Gonçalves – O Cantor do Brasil. As origens no Rio Grande do Sul de um dos maiores cantores e compositores brasileiros foi investigada pelo jornalista em matéria para a revista Aplauso, que pode ser lida aqui.

Voltando à biografia de Júpiter Maçã, o livro aborda a trajetória de Flávio Basso (1968-2015), músico gaúcho que integrou as bandas TNT e Cascavelletes e, em carreira solo, lançou discos com os pseudônimos Woody Apple, Júpiter Maçã e Jupiter Apple.

O material de divulgação destaca que a obra mostra “a vida dele do nascimento à morte, passando por suas vitórias (uma irregular, porém cultuada carreira de rockstar – quase incomparável no Brasil) e tragédias (alcoolismo, paranoia, a morte precoce de seu único filho) com riqueza de detalhes, revelações e informações inéditas, e ainda farto material fotográfico (são, ao todo, quase 70 registro fotográfico, a maior parte raro ou inédito).”

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Para ilustrar esse texto, segue um trecho inédito da biografia, selecionado pelo Cristiano Bastos e que apresenta a persona dylanesca chamada Woody Apple, adotada por Flavio Basso após o fim dos Cascavelletes e antes dele tornar-se Júpiter Maçã

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O biógrafo sugere que a leitura do texto seja feita ao som de Saudades do Brasil, canção que ilustra essa fase da carreira do músico e que tem um caráter político declarado.

Woody Apple

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Com bastante tempo livre, Flávio Basso passou a compor um novo repertório, que vinha rascunhando desde sua última temporada no TNT. Pesquisador da carreira dos Beatles, ele sabia da influência que o cantor americano Bob Dylan tinha exercido em John Lennon, cujo primeiro e mais notório desdobramento é a canção “You’ve got to hide your love away”, do disco Help!, de 1965. Se Dylan ajudou os Beatles a expandirem sua poética, o quarteto de Liverpool foi uma inspiração importante para ele eletrificar sua sonoridade, um bate-bola musical no qual ambas as partes saíram vitoriosas – e, no caso do folk singer, uma mutação que parte de sua plateia assistiu atônita.

Ícone do revival da música folk dos Estados Unidos, considerado a voz de sua geração por conta de letras que refletiam tanto angústias existenciais quanto o estado das coisas em seu país em meados dos anos sessenta, Bob Dylan lançou, em março de 1965, um álbum divisor de águas em sua trajetória: Bring It All Back Home. Depois de quatro LPs essencialmente acústicos, o cantor produziu um disco no qual metade das músicas é apresentada ao violão e a outra metade com acompanhamento de banda elétrica. Bring It All Back Home causou a revolta dos puristas que viam nele um símbolo de rendição do cantor ao stablishment, uma traição imperdoável. Para pessoas ligadas à tradição folk, especialmente os mais velhos, as bandas de rock eram um produto alienante feito para o consumo das massas, de mérito artístico questionável, direcionado especialmente aos adolescentes. Mais do que o disco propriamente dito, a participação de Dylan no Newport Folk Festival, em 25 de julho de 1965, foi um episódio ainda mais emblemático para a polêmica gerada pela eletrificação de sua música.

O prestigioso evento dedicado à música folk, do qual Bob Dylan participara nos dois anos anteriores, testemunhou a estreia, em cima do palco, do singer-songwriter com banda elétrica – que contava, na ocasião, com dois parceiros importantes nessa nova fase, o organista Al Kooper e o guitarrista Mike Bloomfield. Cabelos desgrenhados, óculos escuros, guitarra em punho, Dylan escandalizou público e muitos de seus colegas músicos com seu set – parte dele, vale ressaltar, foi mostrado na primeira metade do show, em formato acústico, sem grandes estranhamentos. As letras das composições mais recentes, para desgosto de muitos de seus antigos fãs, traziam influência da literatura beat e do surrealismo, ao contrário do pragmatismo realista e crítico associado ao folk – uma música que, em suma, canta as agruras da vida do trabalhador simples, seja um camponês do interior ou um proletário na cidade grande. Para piorar, a nova persona artística de Robert Allen Zimmerman (nome de batismo do cantor-compositor) ostentava um ar de petulância, em contrapartida à imagem de jovem tímido e eloquente que o identificava até então. Mas, ao contrário do que seus detratores previam, essa transformação de folkie para rocker – “Judas”, Dylan foi xingado, logo depois, em apresentação na Inglaterra – alcançou um novo público, ainda maior, e mostrou-se tão inspirada e influente quanto a fase voz e violão do artista nascido em Duluth, Minnesota, em 1941.

E foi essa figura revolucionária que, naquele começo de anos noventa, tornou-se a principal referência musical de Flávio Basso. Desempregado, com o casamento em crise e pai de uma criança pequena, o cantor gaúcho sentia a necessidade de expurgar suas vivências de jovem adulto, tudo aquilo que lhe angustiava nos últimos anos. O fim dos Cascavelletes significou, simbolicamente, o fim de sua adolescência, a perda da inocência, o término de uma festa que, durante alguns anos, parecia não ter fim. Blusão de flanela, sapatos batidos, cabelos compridos, violão debaixo do braço e gaita de boca pendurada no pescoço: o Flávio daqueles dias levava uma existência um tanto quanto beatnik, com (pouco) dinheiro emprestado de familiares, vivendo um dia após o outro. O futuro era incerto, a insatisfação, uma constante, mas a inspiração, pelo menos, era garantida. Foi um período fértil, de muito aprendizado. “Eu ouvia o [álbum de Bob Dylan] Highway 61 Revisited e tentava entender as letras, jogar com aquilo tudo e também escrever junto. Eu pensei: poesia é isso”, Flávio refletiu em entrevista, 20 anos depois, para a revista digital Bastião.

Leo Felipe, fundador do bar Garagem Hermética, casa noturna que seria de extrema importância para Flávio Basso dali a algum tempo, relata em seu livro A Fantástica Fábrica uma cena ocorrida na loja Boca do Disco, de propriedade do folclórico e rabugento Getúlio Costa: “A tarde já caia e a loja era iluminada apenas por uma lampadinha fraca pendendo de um fio no forro. Não havia mais contraluz quando vi o planeta em transformação saindo com o [disco] Planet Waves embaixo do braço. Tive um impulso de sugerir pra trocar pelo Blood On The Tracks, mas fiquei frio. Inútil tentar interferir no curso dos astros”.

Partindo de audições de álbuns de Bob Dylan e de outros artistas associados ao folk, Flávio foi, gradualmente, moldando seu novo estilo. Fitas cassetes guardadas por Rachel revelam esse processo. Nelas estão rascunhos de músicas nas quais o músico ainda tateava este novo universo. Especialmente nas letras, ele soa um tanto perdido, cantando temáticas que têm mais a ver com quem o inspirava do que com suas próprias vivências. Nunca muito ligado em política, Flávio tentou abordar o assunto: “Eu digo não ao presidente / Eu voto não pra toda política / Eu voto não pra todas as religiões / Eu só voto sim para a humanidade no topo se autogovernando”, dizia uma das canções.

Em outra, ele colocava a natureza como uma força redentora: “Vem terremoto, vem tremer o chão onde piso, a terra vai me engolir / Venha maremoto, venha inundar meu paraíso, a água purifica / Venha mulher, vem me abraçar, rir e chorar, nossos corpos nus igual marionetes no meio da rua, o mundo vai acabar / Vem tempestade, venha molhar meus sentimentos, eu quero ser batizado”. A vida on the road também foi tema: “Enquanto espero o trem pra me mandar, que saudades, agora eu já estou longe / O jeito é esquecer você e a cidade, um pé no chão, violão nas costas, andando pelo campo, sem chorar e sem encher / Sem voltar e sem perder, vou andar por onde quero, mas voltar eu quero mais”.

Compositor prolífico, Flávio Basso logo amadureceu as novas ideias musicais e decidiu gravar um punhado de recentes canções. Financiado pelo pai, o músico reservou horários noturnos no estúdio da Isaec. Lá, com o auxílio do técnico de gravação Edu Coelho, ele deu início à aventura solo. Flávio construiu as músicas sozinho, cantando e tocando guitarra, violão, baixo, teclados, gaita de boca e bateria. A única contribuição externa foi a participação de músicos de um quarteto de cordas em uma das composições. “A capacidade de organização dele era incrível. O Flávio chegava no estúdio sabendo o que queria. Isso me chamou muito a atenção. As composições estavam prontas, bem arranjadas”, lembra Edu. Esse nível de organização permitiu que uma música fosse registrada a cada visita ao estúdio. “Gravamos tudo em uns 10 dias”, detalha o técnico.

O resultado dessas sessões pode ser considerado o primeiro – ainda que nunca lançado – álbum solo de Flávio Basso. A influência de Bob Dylan em algumas faixas é perceptível, assim como, novamente, a dos Beatles – especialmente da fase do começo do namoro da banda inglesa com o folk, ou seja, o disco Help!. E se o amor, em diferentes manifestações, foi tema cantado pelo músico gaúcho ao longo da carreira, ele nunca soou tão romântico quanto ali. Um romantismo, evidentemente, ao estilo do compositor, com certa dose de malícia.

Foto: Acervo Rachel Pires Correa

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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