Participar de eventos com mulheres é uma constante na minha rotina. Procuro fazer isso para valorizar a presença feminina em espaços concedidos naturalmente aos homens, de forma tão automática que nem pensamos a respeito do protagonismo masculino em lugares de fala.

Por isso, fui prestigiar uma das atividades de É Coisa de Mulher, programação especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher promovida pelo Centro Histórico Cultural Santa Casa, em Porto Alegre. O bate-papo com a escritora Cláudia Tajes superou minhas expectativas. Primeiro por transpor as fronteiras da Literatura. Claudia é colunista de jornal, roteirista de televisão e com livros já adaptados para o teatro e o cinema.

O outro motivo da minha quebra (positiva) de expectativa foi a sinceridade e espontaneidade da escritora. Falar de perrengues financeiros, dar detalhes dos bastidores de seu trabalho na Rede Globo e ter a autocrítica de confessar não gostar de um de seus próprios livros: Dores, Amores e Assemelhados. “É um livro com enredo que hoje considero elitista e só me dei conta depois da crítica de pessoas que respeito a opinião. Ainda bem que está esgotado”, comenta, bem humorada.

A escritora lamenta enfrentar resistência entre leitores do sexo masculino, por ter protagonistas mulheres em suas obras.

“É só sair no jornal que um livro meu é ‘sob a ótica feminina’ que o tiozão do churrasco já não tem interesse em dar uma chance para a leitura”, avalia.

Após o evento, entrei em contato com a autora, que generosamente cedeu à coluna Voos Literários um trecho de um livro inédito, que deve ser lançado em maio. Claudia Tajes parece ter atingido o objetivo comentado durante o bate-papo no Centro Histórico Cultural da Santa Casa: manter sua escrita leve mas sem ser fútil.

Boa leitura!

Eu, o outro (título provisório)

1

Naquela manhã eu acordei de sonhos intranquilos como se tivesse um peso abaixo da minha barriga, não, abaixo do abaixo da minha barriga, uma sensação estranha, a pelve sendo puxada para baixo, e a primeira coisa que pensei foi em alguma doença, quem sabe cistite, moléstia venérea: impossível, há meses eu não saía com ninguém, e também parecia diferente da minha última infecção urinária, era quente e se mexia quando eu me mexia e agora estava coçando. Então eu coloquei a mão ali e encontrei um pênis.

Eu tinha virado homem.

2

O cabelo ainda era o meu, chanel precisando de um corte, mas agora com entradas que pareciam as do meu pai. Eu estaria ficando careca? Já as sobrancelhas que ainda ontem eu havia depilado – ao preço de trinta reais – engrossaram, dois ouriços em cima dos olhos. Trinta reais postos no lixo. Cabelos nasceram pelo corpo todo, até as costas ganharam pelos escuros e compridos. Mas o mais surpreendente era o pênis, grande e gordo para uma mulher tão pequena como eu. Batia na metade da minha coxa, e confesso que fiquei orgulhosa dele. Mas só por um momento.

Eu não queria aquele corpo.

 

3

Fazia tempo que eu não dava nenhuma importância para as lingeries. Os namorados dos últimos anos também não reparavam nelas, era tudo muito rápido, quase apressado, uma tarefa a ser cumprida antes de, enfim, dormir. Sorte. Se não fossem as minhas calcinhas sem elástico, esgaçadas pelo uso, seria impossível acomodar meu pênis. Como se esse fosse o maior dos meus problemas. O que eu vestiria para sair do quarto? Minhas saias, meus vestidos, minha leggings, nada me servia. Eu tinha perdido a cintura e a bunda. Se eu nunca quis ser homem, por que uma desgraça dessas havia acontecido logo comigo?

O jeito era procurar alguma roupa que me coubesse no quarto do meu filho.

4

Caco dormia o sono dos adolescentes vagabundos que passam a noite na internet e depois não acordam para ir à escola. Entrei pé ante pé em seu quarto e abri o armário com todo o cuidado. A dobradiça rangeu, Caco continuou imóvel. Comecei a procurar uma camiseta, todas tinham estampas de reggae, eu queria algo mais sóbrio, talvez a pólo que o vô Camilo deu a ele de aniversário e que continuava dentro da embalagem. Já estava escolhendo a bermuda quando senti algo me atingir na cabeça. Ainda ouvi a voz de Caco antes de apagar.

– Mãe, tem um ladrão no meu quarto!

5

Aos poucos fui recobrando a consciência. Acordei amarrada, ou amarrado, com a fita de prender prancha de surfe. Eu estava no chão. Sentado na cama, Caco me olhava com uma raquete de tênis na mão.

– O que tu fez com a minha mãe?

– Caco…

– Como tu sabe o meu nome? Cadê minha mãe?

Antes que eu pudesse responder, tomei uma raquetada no meio da barriga. Sorte que ele ainda não sabia que o porte de armas estava liberado.

– Eu posso explicar. É meio complicado, mas/

– Fala antes que eu te cague a pau. Onde tá a minha mãe?

– Na verdade, a tua mãe/

– Tu matou a minha mãe?

– Não, ela tá bem.

– Cadê minha mãe?

– Mais perto do que tu pensa.

Caco levantou e saiu pela casa à minha procura. Amarrada, ou amarrado, no chão, eu o ouvia chamar: mãe, mãe, mãe. Logo ele estava de volta, e mais nervoso.

– Ela não tá em lugar nenhum.

– Caco!

– Como tu entrou aqui?

– Eu dormi aqui.

– Dormiu? Tá querendo dizer que tu é crush da minha mãe?

Tomei mais uma raquetada, dessa vez nas coxas. Gritei alto.

– Mentiroso. Nunca que a minha mãe ia ficar com um velho gordo como tu.

– Eu não sou gordo. Nem velho.

– Cadê a minha mãe? Fala, senão eu te mato.

– Eu sou a tua mãe.

Imagem: Theo Tajes/Divulgação

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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