Recentemente, a escritora mineira Conceição Evaristo foi eleita na categoria Destaque do prêmio Bravo de literatura. Porque o fato chama a atenção? Além da qualidade indiscutível do seu trabalho na área literária, ela é militante do movimento negro e a gente sabe que se já é difícil para mulheres em geral terem o respeito no meio literário, imagine ainda ter de enfrentar o racismo estrutural existente no Brasil. No discurso durante a premiação, Conceição Evaristo destacou que aquele prêmio era importante não apenas para ela, mas para todas as mulheres, especialmente as negras.

Nascida em uma favela em Belo Horizonte, conciliou os estudos com o trabalho de empregada doméstica. Depois, se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras, com mestrado e doutorado na área de Literatura. Na década de 1990, teve suas primeiras obras publicadas.

Para homenagear essa baita escritora, escolhi um texto em que ela faz referência a outras duas autoras: Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, que escreveu o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.

Clarice no quarto de despejo

No meio do dia

Clarice entreabre o quarto de despejo

pela fresta percebe uma mulher.

Onde estiveste à noite, Carolina?

Macabeando minhas agonias, Clarice.

Um amargor pra além da fome e do frio,

Da bica e da boca em sua secura.

De mim, escrevo não só a penúria do pão,

cravo no lixo da vida, o desespero,

uma gastura de não caber no peito,

e nem no papel.

Mas, ninguém me lê, Clarice,

Para além do resto.

Ninguém decifra em mim

a única escassez da qual não padeço,

– a solidão –

 

E ajustando o seu par de luvas claríssimas

Clarice futuca um imaginário lixo

e pensa para Carolina:

– a casa poderia ser ao menos de alvenaria –

E anseia ser Bitita inventando um diário:

páginas de jejum e de saciedade sobejam,

a fome nem em pedaços

alimenta a escrita clariciana.

 

Clarice no quarto de despejo

lê a outra, lê Carolina,

a que na cópia das palavras,

faz de si a própria inventiva.

Clarice lê :

– despejo e desejos

Conceição Evaristo também será homenageada em Porto Alegre, durante a FestiPoa Literária. O objetivo é chamar a atenção para a produção literária das mulheres, em especial das mulheres negras. A abertura vai ser dia 2 de maio, no Salão de Atos da UFRGS, com entrada franca. Mais detalhes aqui.

 

Flávia Cunha
Author

Jornalista, formada pela Famecos (PUCRS), e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Apaixonada pela obra de Caio Fernando Abreu, uniu dois interesses e analisou o trabalho do escritor gaúcho como jornalista. Entre suas preferências literárias também estão, entre outros, García Márquez, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não necessariamente nessa ordem. É fissurada por café e rock n’roll.

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