Essa frase (e variações dela) vem sendo reproduzidas em comentários pela Internet, essa rede criada para interligar as pessoas mas que parece cada vez mais ser usada como instrumento de propagação de ódio. Fiquei divagando sobre esse tipo de declaração, ao ter um comentário desses associado a um texto meu. Fiquei genuinamente intrigada. 

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O que faz com que o internauta em questão ache que eu sou comunista?

E “comunista” é xingamento?

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Então, fui fazer algumas pesquisas para propor reflexões a respeito. A verdade é que o tão temido comunismo nunca foi aplicado em nenhum país, por prever o fim do Estado com a chegada da igualdade absoluta entre os cidadãos. A sociedade, portanto, arranjaria uma maneira de se autorregulamentar. Seria, a grosso modo, a etapa final do socialismo, esse sim implementado na antiga União Soviética e em Cuba, por exemplo.

Para entender as raízes do ódio ao comunismo, cheguei num artigo sobre o anticomunismo e constatei que não  há um consenso nesse movimento. Liberais, conservadores, democratas cristãos, fascistas e nazistas têm (ou tiveram) em comum o ódio aos comunistas. O principal motivo, me parece, seria por essa ideologia prever o fim da propriedade privada.

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Mas o que está ocorrendo no Brasil para que de uma hora para outra tanta gente fale em comunismo de forma tão agressiva? Sempre foi assim?

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Nas minhas investigações de obras ligadas ao tema, encontrei alguns fatos curiosos. Em 1980, um livro da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense com o título O Que é Comunismo? foi lançado sem problema algum em território brasileiro, mesmo antes da abertura política.  

Em 1985, era a vez de uma biografia sobre uma comunista virar sensação entre leitores de diferentes vertentes políticas. Olga, de Fernando Morais, aborda a trajetória da comunista e judia Olga Benário, como explica o jornalista, na introdução da obra:

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“A reportagem que você vai ler agora relata fatos que aconteceram exatamente como estão descritos neste livro; a vida de Olga Benario Prestes, uma história que me fascina e atormenta desde a adolescência, quando ouvia meu pai referir-se a Fílinto Müller como o homem que tinha dado a Hitler, “de presente”, a mulher de Luís Carlos Prestes, uma judia comunista que estava grávida de sete meses. Perseguido por essa imagem, decidi que algum dia escreveria sobre Olga, projeto que guardei com avareza durante os anos negros do terrorismo de estado no Brasil, quando seria inimaginável que uma história como esta passasse incólume pela censura.”

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Perceberam a última frase? Em 1985, era possível escrever sobre uma comunista sem ser execrado. Aliás, as críticas da época foram muito boas, como podemos notar pelas avaliações da imprensa da época, que constam nessa primeira edição.

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“Além de ser um retrato de corpo inteiro de Olga Benario, o livro acabou sendo uma história completa da revolta comunista de 1935.” (O Globo)

“Estou impressionado com a qualidade do texto e com o belo profissionalismo com que o trabalho foi encarado. É, sem sombra de dúvida, uma excelente obra e um livro indispensável.” (Tarso de Castro – Tribuna da Imprensa)

“Não é apenas o relato da vida e da morte de Olga Benario, mas traz revelações inéditas e polêmicas sobre a revolta comunista de 1935.” (Jornal O São Paulo)

“Só agora a fascinante história de Olga é contada de verdade para nós – e de forma apaixonada.” (Marília Gabriela – TV Bandeirantes)

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O livro Olga foi reeditado com sucesso em 1994 quando também não houve nenhum tipo de comoção por abordar, com humanidade e alguma ternura, a trajetória de uma comunista. O filme Olga, de 2004, tampouco enfrentou críticas do gênero. Alguma coisa realmente parece ter mudado nesses últimos anos no Brasil. E, no meu ponto de vista, não foi para melhor.

Sobre Cuba, citada no título desse texto, falarei em breve. A abordagem será de uma obra passada na terra de Fidel e escrita por um norte-americano premiadíssimo. Aguardem!

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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