A frase do título desse texto pode ser vista em camisetas infantis compradas por mães esperançosas em não propagarem o machismo estrutural existente na nossa sociedade. “Com mãe feminista eu não cresço machista”  é um bordão necessário para evitar que, no futuro, homens com dinheiro e fama ajam como Robinho. O jogador, incomodado com a repercussão negativa da sua condenação por violência sexual na Itália, preferiu criticar quem luta pelo fim da cultura do estupro:

“Infelizmente, existe esse movimento feminista. Muitas mulheres às vezes não são nem mulheres, para falar o português claro, e se levantam contra. Eu sou casado, se eu sair na rua e uma mulher me chamar de lindo, tem uma conotação. Se eu mexer com você (entrevistadora) com falta de respeito, é totalmente diferente”, afirmou o jogador. (Leia  matéria completa aqui) 
CASO PERDIDO

Depois de ler essa entrevista, eu não vejo uma solução para que Robinho deixe de ser o homem machista que é, assim como todos aqueles que o defendem ou relativizam seu crime. O jogador terá é que se acertar com a justiça italiana e, lá, de nada adiantarão lamentos contra o feminismo. O que me interessa mesmo é pensar no futuro.

O FUTURO PRECISA SER FEMININO

Nenhuma criança, independente do sexo, nasce achando que mulheres são objetos e merecedoras de agressões. Porém, dependendo do ambiente em que meninos são criados, passam a pensar e agir de forma tóxica e machista. Por isso, é preciso que sejam educados para respeitar todas as mulheres, e não apenas suas mães e irmãs. É necessário mostrar que eles não serão donos dos corpos femininos. Eles precisam ser ensinados, de forma direta e clara, sobre o que é consentimento e o quanto o abuso sexual é um crime horrível (e não motivo para se gabar entre seus amigos homens.)

UTOPIA OU UMA REALIDADE POSSÍVEL?

Pode parecer utópico, mas eu acredito no fim do machismo. Considero que um dos meios para atingirmos um futuro com menos masculinidade tóxica é através da leitura de livros infantis adequados. Existem obras feministas com enredos que vão ensinar as crianças sobre igualdade e respeito. Obras que mostram meninas como protagonistas de suas existências e não apenas como princesas que ficam em torres aguardando a chegada de príncipes salvadores. E quando vejo Robinhos da vida esperneando contra o movimento feminista mais me convenço que entrelaçar feminismo e literatura infantil é uma necessidade.  

CANTINHO DA LEITURA

Além dos textos da coluna Voos Litérários, o podcast Cantinho da Leitura é outro espaço de luta contra o machismo. E é por isso que o segundo episódio, que será lançado em novembro, trará sugestões de leituras feministas para crianças. O projeto, que estreou em outubro, foi contemplado em um edital emergencial para os trabalhadores do setor cultural do Rio Grande do Sul, chamado FAC Digital. Vocês podem ouvir o primeiro episódio aqui e seguir o perfil do podcast no Spotify. 

USE PRIDA

As fotos que ilustram esse texto foram cedidas por mulheres que acreditam  que “as crianças serão a revolução”, conforme destaca Maisa Sabino, mãe de Armando, de 7 anos, de Ponte Nova (MG). “Só vamos quebrar o patriarcado, o machismo, o sexismo e a cultura de violência de gênero por meio da educação. Meu filho é livre para brincar do que quiser, por exemplo. Tendo essa infância diversa, ele já sabe respeitar as diferenças.  Ajuda na cozinha, nos afazeres da casa. E nem cobro, Armando faz questão, porque já está crescendo com isso enraizado nele”, conta Maisa.

Bruna de Bem, mãe do pequeno Leonel de Bem Unser, de 8 meses, de Novo Hamburgo (RS), comenta que é motivo de preocupação pensar em como criar um filho não machista em um sociedade machista. “Acredito que será nas pequenas coisas do dia que ele acabará aprendendo a respeitar as mulheres. E, também, por viver em um ambiente onde não existem atitudes sexistas”, avalia.

Armando e Leonel vestem a marca  autoral Use Prida.  As imagens são do acervo pessoal das entrevistadas, de 2019 (Armando) e 2020 (Leonel).

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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