A fala da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos sobre “meninas usarem rosa, meninos usarem azul” gerou uma repercussão negativas na Internet mas obteve uma ampla defesa por parte do eleitorado alinhado com o atual presidente. Porém, considero que essa declaração vai muito além de ser apenas uma bobagem ou cortina de fumaça para encobrir ações mais relevantes do governo, como já li por aí . Por trás do empolgado grito de Damares Alves está o conservadorismo, que é contrário às causas LGBT e feminista. É também a dinâmica do novo governo: usar os costumes como ferramenta de coerção dos “diferentes” e, ao mesmo tempo, agradar a uma parcela da população que se incomoda com quem é fora do padrão.

Vou falar aqui hoje do ponto de vista feminista, por acreditar que ele abarca o respeito e a igualdade, que é o que todas as pessoas com o mínimo de bom senso deveriam querer para a nossa sociedade.

Para abordar o assunto escolhi dois livros da aclamada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que tem obras traduzidas para mais de 30 idiomas e é um fenômeno mundial na área editorial e no ativismo feminista.

Em Sejamos Todos Feministas, a autora faz uma reflexão necessária sobre como seria libertador para todos alcançar a igualdade:

[…] meninas poderão assumir sua identidade, ignorando a expectativa alheia, mas também os meninos poderão crescer livres, sem ter que se enquadrar em estereótipos de masculinidade.”

O livro é uma adaptação de um famoso discurso feito por Chimamanda em um TEDx e também foi musicado pela cantora pop Beyoncé.

INFÂNCIA FEMINISTA

Porém, já que ao explicar posteriormente sua fala a ministra brasileira tentou remendar dizendo que o uso de determinadas cores deve ser aplicado apenas durante a infância, vou me deter mais na obra Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto.

Esse livro da escritora nigeriana foi inspirado na carta a uma amiga que fez o pedido à autora de conselhos de como criar uma criança dentro dos preceitos do feminismo. (Lembrando que trata-se de educar para a igualdade e não de mulheres terem mais valor do que homens.)

Para Educar Crianças Feministas tem várias respostas que podemos aplicar para o discurso e visão de mundo arcaica de Damares Alves.

Sobre a polêmica azul x rosa no vestuário infantil, Chimamanda comenta, ao falar sobre a busca de uma roupa em uma loja:

Na seção das meninas, havia umas coisas pálidas espantosas, em tons de rosa desbotado. Não gostei. A seção dos meninos tinha roupas num azul forte e vibrante. Como achei que o azul ia ficar lindo em contraste com a pele morena dela — e sai melhor nas fotos —, comprei uma roupinha azul. A moça do caixa me disse que era o presente ideal para um garotinho. Falei que era para uma menininha. Ela fez uma cara horrorizada: “Azul para uma menina? Fico imaginando quem foi o gênio do marketing que inventou essa dualidade rosa-azul. […] Por que não organizar as roupas infantis por idade e expô-las em todas as cores? Afinal, todos os bebês têm corpo parecido.”

Mais adiante, na mesma obra, a autora comenta sobre as brincadeiras serem separadas por gênero, o que ela também considera inadequado:

Os brinquedos para meninos geralmente são “ativos”, pedindo algum tipo de “ação” — trens, carrinhos —, e os brinquedos para meninas geralmente são “passivos”, sendo a imensa maioria bonecas. Fiquei impressionada com isso. Eu não tinha percebido ainda como a sociedade começa tão cedo a inventar a ideia do que deve ser um menino e do que deve ser uma menina. Eu gostaria que os brinquedos fossem divididos por tipo, não por gênero. Já contei sobre a vez que fui a um shopping americano com uma menina nigeriana de sete anos e a mãe dela? A menina viu um helicóptero de brinquedo, uma daquelas coisas que voam com controle remoto. Ela ficou fascinada e pediu um. “Não”, disse a mãe. “Você tem suas bonecas.” E a menina respondeu: “Mamãe, é só com boneca que vou brincar?”. Nunca me esqueci daquilo. A intenção da mãe era boa, claro. Era bem versada nas ideias de estereótipos de gênero — meninas brincam com bonecas e meninos brincam com helicópteros. Agora me pergunto, um pouco sonhadora, se a menininha não teria virado uma engenheira revolucionária se tivessem dado a ela a chance de explorar aquele helicóptero.”

Para quem me lê aqui e têm crianças pequenas por perto, sugiro refletir sobre como a questão de gênero ensinada durante a infância pode refletir durante a idade adulta, influenciando nos relacionamentos amorosos e, como Chimamanda mencionou acima, nas escolhas profissionais.

A organização doméstica ainda é uma atribuição considerada exclusivamente feminina em diversos países.

Chimamanda aconselha como sua amiga (e todos que têm filhxs) deve agir para mudar essa situação:

Ensine a ela que ‘papéis de gênero’ são totalmente absurdos. Nunca lhe diga para fazer ou deixar de fazer alguma coisa ‘porque você é menina’. ‘Porque você é menina’ nunca é razão para nada. Jamais. Lembro que me diziam quando era criança para ‘varrer direito, como uma menina’. O que significava que varrer tinha a ver com ser mulher. Eu preferiria que tivessem dito apenas para ‘varrer direito, pois assim vai limpar melhor o chão’. E preferiria que tivessem dito a mesma coisa para os meus irmãos.”

E se mesmo depois dessa toda essas reflexões sobre gênero (que começa com a história do rosa e azul) vocês ainda acharem que o assunto é “bobagem”, atentem para os números de violência contra a mulher e para diversos feminicídios ocorridos nos últimos dias no Brasil. Por trás desse cenário de barbárie, há uma criação machista e patriarcal, que passa para os homens a mensagem de que suas esposas, namoradas ou amantes são sua propriedade e, portanto, não podem ter vontade própria e tomar a iniciativa de terminar um relacionamento, por exemplo.

Para mudar esse cenário, é preciso que comecemos, sim, desde a infância a mudar a mentalidade de meninas e meninos.

E, para encerrar o assunto de cor para menino ou menina, observem como nessa foto da infância de Chimamanda Ngozi Adichie ela está linda com um vestido AZUL e branco. Porque cor, meus amigos, nunca teve gênero.

O que existe por trás dessa polêmica é a normatização de comportamentos. Vamos lutar contra isso, porque também faz parte da resistência política darmos liberdade para cada um criar seus filhos dentro de seus valores, desde que eles não sejam perpetuadores implícitos de violência e preconceito, como os conservadores defendem.

Imagens: acervo/autora 

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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