Essa coluna completa hoje 150 textos publicados semanalmente. Os leitores que têm o hábito da escrita podem imaginar como é difícil manter a disciplina. É um desafio. E é impressionante como o processo de criação varia de acordo com o tema escolhido.

Às vezes, as palavras fluem imediatamente do documento em branco no computador, resultando em um post praticamente pronto, merecendo uma mera revisão. Em outras ocasiões, é preciso parar, refletir. Fazer pesquisas. Dar um tempo. E esperar que as ideias se acomodem internamente até resultarem no texto final. Mas acho que venho conseguindo cumprir a promessa que fiz à editora-chefe do Vós, Geórgia Santos: conectar a Literatura com a atualidade e provocar reflexões. E também incentivar a ideia que a leitura é libertadora e democrática. Um hábito que pode ser prazeroso, estimulante e, dependendo da obra escolhida, se transformar em um ato revolucionário, ainda que de revolução interna. Mas deixando a “egotrip” de lado e estimulada pela reflexão a respeito do exercício de escrita, resolvi abordar o processo criativo de dois escritores famosos e diferentes entre si: Clarice Lispector e Stephen King. .

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STEPHEN KING

O mestre do suspense, reconhecido por romances de grande fôlego, também é exímio na arte de surpreender com histórias curtas. No livro O Bazar dos Sonhos Ruins, o norte-americano brinda os leitores com enredos que flertam com o fantástico e o inesperado. Antes de cada conto, um presente para os mais curiosos: o autor revela como surgiu a ideia que resultou nos textos.  Já na introdução podemos observar o caráter confessional dessa obra de Stephen King:

“Você ficaria surpreso (ao menos, acho que ficaria) com a quantidade de pessoas que me perguntam por que eu ainda escrevo contos. […] Sou romancista por natureza, isso eu admito, e tenho um gosto particular por histórias longas que criam uma experiência de imersão tanto para o autor quanto para o leitor, onde a ficção tem a chance de se tornar um mundo quase real. […] Mas há algo especial nas experiências mais curtas e mais intensas. Podem ser revigorantes, às vezes até chocantes, como uma valsa com um estranho que você nunca mais vai encontrar, ou um beijo no escuro, ou uma bela raridade à venda sobre um lençol barato em um bazar. E, sim, quando minhas histórias estão reunidas, sempre me sinto como um vendedor ambulante, um que só vende à meia-noite. Exibo minha mercadoria e convido o leitor (você) a escolher o que quiser.”

Meu conto predileto entre os 20 publicados nesse livro é Garotinho Malvado, que tem uma singela explicação por parte de King para sua criação. O resultado é um enredo simples mas com doses de suspense e terror bem ao gosto de fãs do gênero :

“Em algum momento, decidi que queria escrever uma história sobre um garotinho malvado que se mudava para um novo bairro. Não um garoto que fosse literalmente o filho do diabo, não um garoto possuído pelo demônio no estilo O exorcista, mas só malvado por ser malvado, malvado até o último fio de cabelo, a apoteose de todos os garotinhos malvados que já existiram. Eu o via de short e com um boné com hélice no alto da cabeça. Eu o via sempre criando confusão e nunca se comportando.”

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CLARICE LISPECTOR

Já Clarice escolhe falar de seu processo criativo de forma mais indireta. A escritora cria em Um Sopro de Vida o alter ego de um autor, que escreve sobre uma personagem chamada Ângela Pralini. Em uma espécie de prefácio sem maiores explicações, o enredo começa a abordar os desafios da escrita, por parte desse autor-narrador-personagem: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.”

Mais adiante, Clarice prossegue em sua divagação-confissão:

“Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras – quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.”

Em determinados trechos, o recurso da metalinguagem fica explícito:

“Este é um livro silencioso. E fala, fala baixo. Este é um livro fresco – recém-saído do nada. […] Este livro é um pombo-correio. Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler será por conta própria e autorrisco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. […] Cada novo livro é uma viagem. Só que é uma viagem de olhos vendados em mares nunca dantes revelados – a mordaça nos olhos, o terror da escuridão é total. Quando sinto uma inspiração, morro de medo porque sei que de novo vou viajar e sozinho num mundo que me repele. Mas meus personagens não têm culpa disso e eu os trato o melhor possível. Eles vêm de lugar nenhum. São a inspiração. Inspiração não é loucura. É Deus. Meu problema é o medo de ficar louco. Tenho que me controlar. […] Este ao que suponho será um livro feito aparentemente por destroços de livro. Mas na verdade trata-se de retratar rápidos vislumbres meus e rápidos vislumbres de meu personagem Ângela. Eu poderia pegar cada vislumbre e dissertar durante páginas sobre ele. Mas acontece que no vislumbre é às vezes que está a essência da coisa. Cada anotação tanto no meu diário como no diário que eu fiz Ângela escrever, levo um pequeno susto.”

Caio Fernando Abreu, um fã confesso de Clarice Lispector, também sentia essa necessidade incessante da escrita, como uma forma de manter-se vivo. Em Pequenas Epifanias, o escritor coloca uma epígrafe de sua própria autoria:

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“Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar.

Por essa razão escrevo”

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Que encontremos soluções positivas e criativas para os becos sem saída desse momento sociopolítico brasileiro: escrever, pintar, dançar, cantar, encenar…. Modestamente, prossigo por aqui escrevendo, pois é meu instrumento de resistência. Desejo um feliz e potente 2020 aos leitores do Vós e da coluna Voos Literários. Sigamos!

Imagens: Reprodução/ Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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