João Gilberto se foi, deixando uma lacuna na cultura brasileira. Porque é inegável seu legado ao reinventar o jeito de cantar no país, além de dar status internacional para composições da Bossa Nova. É um fato inquestionável em 2019. 

Mas em 1958 o cenário era diferente. Era uma revolução aquela voz “pequena”, tão diferente do vozeirão dos cantores de sucesso do samba-canção, gênero consagrado no Brasil da época. A tal novidade impactou jovens (entre eles, famosos ainda desconhecidos na época, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque), mas gerou estranheza entre os conservadores. Ruy Castro conta, em Chega de Saudade – A História e As Histórias da Bossa Nova, que o gerente da principal loja de discos de São Paulo reagiu mal ao ouvir pela primeira vez a canção homônima, gravada em um compacto com duas faixas:

Por que gravam cantores resfriados?”, rugiu. Não esperou a música terminar e não chegou a ouvir “Bim bom”. Tirou o disco do prato, pronunciou a célebre frase — “Então, é esta a merda que o Rio nos manda?” — e quebrou-o na quina da mesa. 

No Brasil de 2019, tem muita gente agindo como esse gerente, ao preferir reverenciar “ritmos” ultrapassados como a defesa do trabalho infantil, o preconceito disfarçado de opinião e o elitismo travestido de cidadania do bem. Não entendem que por mais que se sintam ultrajados, as bossas novas (musicais e sociais) sempre aparecerão para revolucionar a sociedade e o modo de pensar dos caretas.

Foto: /Divulgação

Flávia Cunha
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Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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