O casamento real britânico tomou conta dos noticiários brasileiros de uma maneira que achei um tanto excessiva.  Mas os tablóides europeus estão aí para provar que dar destaque a futilidades e fofocas não é mérito apenas do terceiro mundo. Não importa se você é do time que levantou cedo para saber detalhes da cerimônia que uniu o príncipe Harry com a atriz Meghan Markle ou se se acha tudo isso uma grande bobagem.

A proposta desse texto despretensioso é fazer uma comparação do Reino Unido atual com a Idade Média, por meio de uma viagem ao universo de As Brumas de Avalon, série de autoria de Marion Zimmer Bradley lançada em 1979. A obra conta a lenda do Rei Arthur (aquele da famosa távola redonda) pela perspectiva feminina.

No segundo volume da série, intitulado A Grande Rainha, o enredo gira em torno do casamento de Arthur com “a bela, recatada e do lar” Guinevere ou Gwenhyfar. Ela representa a mulher mais comportada, que segue preceitos cristãos e foi criada para casar e ter filhos.

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Aqui, uma reflexão da personagem sobre sua situação pré-nupcial:

“Ela era apenas parte dos acessórios entre os cavalos e os homens, o equipamento e uma mesa enorme. Era apenas uma noiva, com todas as coisas próprias de uma noiva, roupas, vestidos e jóias, um tear e uma chaleira e uns pentes, e fusos para fiar o linho. Não era ela mesma, não havia nada para ela, constituía apenas propriedade de um Grande Rei que nem sequer se dera ao trabalho de vir até ali para conhecer a mulher que lhe estavam mandando junto com todos aqueles cavalos e arreios. Ela era uma outra égua, uma égua reprodutora para as cavalariças reais, na esperança de gerar um garanhão.”

Para quem achou que não haveria destaque ao vestido da noiva, eis a descrição da roupa, para agradar os fashionistas de plantão:

“Seu vestido era de lã branca, fina como uma teia de aranha. Gwenhwyfar contou a Igraine, com um orgulho tímido, que o tecido fora trazido de um país distante, mais distante até do que Roma, e era mais 60 caro do que ouro. Seu pai comprara uma medida desse pano para a pedra do altar de sua igreja, e um pedaço menor para envolver uma relíquia sagrada, e dera-lhe também um corte com o qual fizera seu vestido de casamento.”

A narradora de As Brumas de Avalon é Morgana, o oposto da noiva. Ela foi criada para ser uma sacerdotisa pagã e, por isso, teve acesso à educação e até os 34 anos ainda não estava casada.

“Morgana sentiu, apesar de seu belo vestido e da excelência de seu véu, como se fosse uma criatura grosseira, anã, terrena, ante a brancura etérea e o dourado precioso de Gwenhwyfar. A sensação durou apenas um momento; depois a moça deu um passo à frente e abraçou-a, beijando-a no rosto como convinha a uma parenta. Morgana, retribuindo o cumprimento, sentiu que Gwenhwyfar era frágil como um cristal precioso, ao contrário da solidez de que ela, Morgana, era dotada.”

Os livros de As Brumas de Avalon mostram muito da condição da mulher no período medieval e resultam numa leitura envolvente sob o viés do protagonismo feminino. Em pleno século 21 do mundo real, muita coisa mudou. A atriz Meghan Markle está longe de ser coadjuvante na realeza britânica, tendo quebrado alguns paradigmas na cerimônia de casamento em que a questão racial teve um destaque merecido, com direito a um coral gospel e tudo.

Para saber mais sobre a família real britânica, que desperta amor e ódio em igual medida, seguem algumas sugestões de leitura:

The Queen – O livro mostra a reação da Rainha depois da morte de Lady Di

A Família Real – Uma biografia não-autorizada da família real.

Prince William & Kate Middleton – Their Story Mais uma obra para quem curte saber bastidores e fofocas da realeza britânica.

E deve sair em um breve um livro escrito pela irmã de Megan. Certamente vai ser mais um livro para ser devorado pelos fãs do assunto.

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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