Desde o anúncio da festa de casamento do ex-presidente Lula com a sociológa Rosângela Silva, a Janja, realizado no dia 18 de maio, o noticiário político ganhou contornos de fofoca. Leo Dias, um colunista conhecido por expor a intimidade de celebridades, foi o responsável por disseminar os detalhes da cerimônia. De entre elas, a de que espumantes que custam 90 reais seriam oferecidos aos convidados, entre outros detalhes.

Esquerdista não pode ter luxo!

Foi o suficiente para que uma onda de ódio e críticas ganhassem força nas redes sociais e em parte da grande mídia brasileira. Afinal, Lula, um ex-presidente da República e candidato ao cargo mais importante do país, deveria ou não ter feito uma festa de casamento “luxuosa”? 

“É imoral neste momento em que tantos passam fome!”

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“Um esquerdista-comunista-petralha não pode ostentar!”

Pois me pergunto se os questionamentos a respeito de uma festa que não foi realizada com dinheiro público são pertinentes do ponto de vista político. Seria incoerência Lula pregar a redução da desigualdade social ao mesmo tempo em que se dá ao direito de ter uma festa de casamento com bebida (boa) liberada?

Elitismo à brasileira

Por trás da falaciosa polêmica, parece estar o elitismo que costuma acompanhar as críticas a representantes da esquerda brasileira. Que não podem usar Iphone nem comprar nada nos Estados Unidos por lá ser o berço do capitalismo, por exemplo. Que a esquerda caviar (ou cirandeira) é distante do povo pelo simples fato de ter mais dinheiro e por aí vai.

Os defensores dessa visão enxergam a esquerda como condenada a um compulsório voto de pobreza em nome de uma suposta coerência ideológica. Mas digamos que Lula resolvesse seguir essa linha de raciocínio…

O casamento versão “esquerdalha”

Receberia os convidados trajando camiseta puída, uma bermuda gasta e chinelos, com um corote em punho. Janja deveria abrir mão do vestido de noiva, esse símbolo da burguesia. Poderia usar um vestido simples, sem adornos. Afinal, esquerdistas não precisam ter vaidades! No convite de casamento, um alerta: traga sua bebida e 1 kg de carne para o churrasco.

No dia seguinte, certamente circulariam “notícias” a respeito da pobreza da celebração, de como era uma falta de respeito com a instituição do casamento, etc. Afinal, os adeptos do elitismo e do falso moralismo parecem se incomodar é com um ex-metalúrgico que ocupou um cargo tão importante e, ao que tudo indica, ocupará novamente. 

Os antipetistas preferem não enxergar que de comunista Lula não tem nada, já que durante seus dois mandatos buscou mais a conciliação de classes do que a revolução do proletariado. O moderado Geraldo Alckmin, atual candidato a vice, que o diga…

Sugestão de leitura para ampliar o debate

Subcidadania brasileira – Jessé Souza – Editora Leya

Trecho destacado pela coluna Voos Literários:

“Essa visão absurda e servil do brasileiro como lixo do mundo, que retira a autoestima e a autoconfiança de todo um povo, só logrou se tornar a ideia hegemônica entre nós porque se traduz em dinheiro e hegemonia política para a ínfima elite do dinheiro que nos domina há séculos. Essa ideia possibilita a união do desprezo das elites internacionais em relação à periferia do capitalismo, com o desprezo das elites nacionais pelo seu próprio povo. É apenas porque a sociologia do vira-lata serve como uma luva para a legitimação dos interesses econômicos e políticos dessas elites, o que explica que ela tenha se tornado a interpretação dominante da sociedade brasileira para si mesma até hoje.”

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Imagem: Ricardo Stuckert / Reprodução redes sociais

 

 

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br