Peço licença aos meus leitores para fazer uma homenagem muito pessoal ao meu pai. Diferente do que fiz nesse texto, em que havia uma certa pretensão ao ficcional, dessa vez foi uma singela carta ao Além, originalmente publicada no meu perfil pessoal no Facebook. Uma forma de lidar com o luto mas também de alertar meus amigos nessa rede social sobre como meu pai, mesmo sendo de direita, era uma pessoa a favor das Artes e das Ciências Humanas. Nesses tristes tempos em que vivemos, penso que talvez algumas pessoas mais conservadoras possam fazer reflexões, a partir desses relatos, sobre como o atual governo está tendo atitudes descabidas e absurdas.

Pai,

hoje seria teu aniversário e eu fico aqui me perguntando como tu estaria com 73 anos se ainda estivesse nesse plano. Sabe, pai, é difícil pra pessoas como nós, sem fé, lidar com a morte. Acho que pra ti também era, tu só prefiria não conversar a respeito.

Mas deixa eu te contar, véinho, que desde da tua partida, lá em 2015, eu resolvi escrever sobre umas lembranças aqui no Facebook. Tem gente que já me comentou que acha isso legal, então vou aproveitar o teu aniversário pra dividir com outras pessoas mais uma história nossa.

Mas primeiro, pai, tenho que te comentar que infelizmente a política brasileira tá de mal a pior. Mesmo tu, antipetista, ia concordar comigo que é um vergonha um governo ser contra professores universitários. Tu acredita, pai, que o atual presidente do Brasil declarou que os cursos de humanas não servem pra nada?

Daí eu lembrei de uma história tua pra contar pra quem nos lê aqui. De quando teus amigos engenheiros ficavam perplexos quando te viam lendo um livro de literatura ou tu comentava a respeito de alguma obra literária.

Jamais vou esquecer do teu tom, entre o irônico e o espantado, ao concluir o relato, dizendo: “Flá, me perguntaram pra que serve ler Umberto Eco ou Saramago. Acredita?”

O que esses teus amigos não sabiam, a exemplo do atual presidente, é que conhecimento não se coloca na balança pra ver o que vale mais.

E é por isso que eu sempre tive orgulho de ti, um engenheiro tão respeitoso com as Artes e com os artistas.

No dia do teu aniversário, acho que a maior homenagem que posso fazer é contar o quanto aprendi contigo sobre a área de Humanas mesmo tu tendo uma formação na área de Exatas. O quanto falamos sobre Hemingway. O quanto foi legal participar contigo de um clube de leitura sobre Fitzgerald. E quantos livros trocamos de presente ao longo da nossa convivência.

Por isso, pai, eu sigo por aqui lutando com as armas que tu me deu: estudo, comprometimento profissional e amor pelo que se faz. Transformei tudo isso em uma pequena empresa que leva teu sobrenome. Espero que tu de alguma forma saiba que tudo isso é pra ti.

Um beijo com saudade da tua filha.”  

Imagem:  Escada do Conhecimento, Universidade de Balamand (Líbano)/Reprodução Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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