O Carnaval está aí, com muita música, fantasias originais, glitter e purpurina. Tem festa e animação, mas também pode ter abuso e objetificação dos corpos femininos. Nesse contexto, a erotização e a objetificação da mulher negra pode ser ainda mais grave.

E quando pedi uma dica de leitura para a Camila Toledo, vocalista da banda MotherFunky (de funk, soul, black music e groove) e criadora do projeto especial Billie Holiday, deixei-a bem vontade para escolher a obra em questão. Como ativista da causa negra e feminista, Camila acabou escolhendo um livro que aborda justamente o tema da objetificação dos corpos negros. Com a palavra, essa mulher incrível, que também foi criadora do Festival NosOutras (que tive a honra de auxiliar na produção):

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“A gente fala de objetificação do corpo negro sem saber o quão profunda essa questão pode se tornar”

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“Fala-se das mulheres hipersexualizadas, do negro como apenas fonte de trabalho. A história e as marcas desse pensamento vêm sendo descobertas pouco a pouco. Existe uma estrutura social de pensamento ainda escravagista que repete que o corpo negro está a serviço da sociedade.

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Estou lendo um livro da escritora Rebecca Skloot. Depois de muito escrever para revistas científicas, Rebecca interessou-se por desvendar a historia das células He-La: Células que revolucionaram a medicina como a entendemos hoje, por serem das raras células que se mantém vivas até hoje, mantidas em cultura.

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A linhagem dessas células é responsável por avanços imensuráveis na ciência e também lucros igualmente imensuráveis. Essas células foram coletadas de uma mulher negra norte americana, Henrietta Lacks ao ser internada em um hospital para negros na Virginia já perto da morte.  As células eram de uma câncer e, como era de praxe com os pacientes negros, foram coletadas sem o consentimento da paciente.

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Assim, os lucros e louros gerados com as células nunca foram repassados a família. Em A Vida Imortal de Henrieta Lacks, a escritora conta da dificuldade de conversar com a família, que rechaça com todas as forças a forma como o corpo de Henrietta fora “usado” pela ciência.

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Um relato sobre objetificação, desrespeito e fundamentalmente sobre as marcas da crua e imposta servilidade negra à sociedade ocidental. Eu comecei a ler esse livro no ano passado e já tive que parar várias vezes, como fiz com Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis, e o Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie.

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Essas leituras, pra mim, que sou ansiosa e negra, geram dois desconfortos: A necessidade de desacelerar pra me concentrar na leitura e as revelações sociais.  Em tempos de redes sociais, ler é uma vitória. E poder ter contato com as doenças sociais que permeiam a vida da gente é um privilégio. Mas requer determinação e resiliência. Indico fortemente esse livro, que além de uma leitura fluida, eleva a discussão sobre objetificação do corpo negro para um outro nível.”

A coluna Voos Literários está pedindo dicas de livros para personalidades do meio cultural do Rio Grande do Sul. O primeiro a dar uma indicação de leitura foi o Duda Calvin.

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Flávia Cunha
Author

Jornalista, formada pela Famecos (PUCRS), e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Apaixonada pela obra de Caio Fernando Abreu, uniu dois interesses e analisou o trabalho do escritor gaúcho como jornalista. Entre suas preferências literárias também estão, entre outros, García Márquez, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não necessariamente nessa ordem. É fissurada por café e rock n’roll.

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