Fãs de Caio Fernando Abreu (como eu) podem comemorar uma boa novidade. Trata-se de um novo livro com uma análise sobre contos do autor gaúcho. A obra, lançada recentemente, é Caio Fernando Abreu: uma poética da alteridade e da identidade, de Mírian Gomes de Freitas. O livro é baseado em tese de doutorado da professora e escritora mineira, defendida no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.

O que esperar da publicação, um lançamento da Editora CRV

O conteúdo do livro de Mírian Gomes de Freitas enriquece, sem dúvida, a chamada fortuna crítica  – o estudo acadêmico – sobre Caio Fernando Abreu. Falecido em 1996, a obra de Caio segue com popularidade no mercado editorial, nas redes sociais e também no meio universitário. Os registros das primeiras pesquisas acadêmicas relacionadas ao escritor gaúcho datam ainda da década de 1990. É, portanto, evidente tratar-se de um legado amplo e de qualidade literária, além de abordar temáticas extremamente atuais. Os textos de Caio Fernando Abreu são presença frequente na coluna Voos Literários por esse motivo, como vocês podem ler (ou reler) aqui e aqui.

Fotos que dão leveza à leitura

Em primeiro lugar, gostaria de destacar a forma como a autora aborda duas das grandes inspirações literárias de Caio: Clarice Lispector e Hilda Hilst. Apesar da relação do autor gaúcho com essas duas grandes escritoras já ter sido objeto de estudo por parte de outros pesquisadores, Mírian consegue lançar questionamentos e observações interessantes para os leitores.

Além disso, a obra conta com diversas fotos do escritor, o que torna a edição prazerosa para os fãs, ao resgatar imagens de diferentes épocas de sua trajetória. Apesar de tratar-se de uma obra com cunho acadêmico, as fotografias dão uma certa leveza à leitura, tornando a análise mais interessante para um público não acostumado com teorias literárias.

Alteridade e Identidade

Na introdução de Caio Fernando Abreu: uma poética da alteridade e da identidade, a pesquisadora explica como foi realizada a análise dos dois conceitos: 

“[…] o assunto da alteridade e da identidade é complexo e suscita questões que nos indagam como escapar do essencialismo e dos estereótipos para pensar o Outro. Então questionamos: de que forma podemos, hoje, compreender questões como a perda e a absorção de uma identidade pelos momentos de militância política, terror, torturas, prisões, exílio, trip contracultural, liberação e repressão sexual, AIDS, frequentemente evocados no contexto da literatura caioferdiana?”

Desenvolvimento do livro

Ao longo do texto, a autora analisa a influência da ditadura militar em narrativas do autor. O objeto são contos dos livros Inventário do ir-remediável e O ovo apunhalado. Também é abordada a desilusão de uma geração perante anos de autoritarismo em Morangos Mofados. Esta é, sem dúvida, a publicação de Caio F. mais conhecida do grande público. A pesquisadora também percorre as identidades fragmentadas presentes em Os dragões não conhecem o paraíso. O viés escolhido é a aparente contradição entre a busca do amor e a presença da Aids. Outro tema que merece destaque é as identidades queer no livro Ovelhas Negras. Uma das pertinentes referências bibliográficas utilizadas no estudo é Judith Butler, autora de Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade e Relatar a si mesmo.

Judith Butler no Brasil

Aqui cabe um pequeno parêntese para quem não se lembra dos ataques à filósofa norte-americana, quando foi noticiada sua vinda ao Brasil em 2017.  Por ser uma das maiores referências em teoria queer, ela sofreu perseguições de conservadores. Uma petição chegou a conseguir 350 mil assinaturas em repúdio à presença de Butler em território brasileiro. O motivo, de acordo com essa visão distorcida, seria o fato de a filósofa ser propagadora da “ideologia de gênero”. O termo inventado por preconceituosos que não aceitam a diversidade sexual é uma mentira propagada até hoje pelo governo Bolsonaro e seus seguidores.

Por isso, no Brasil pandêmico e bolsonarista de 2021, é urgente falar-se sobre questões identitárias e fazer-se reflexões a respeito das consequências do autoritarismo a partir do golpe militar de 1964. Até nisso a obra de Caio Fernando Abreu mostra-se tristemente atual. Mas dar visibilidade para livros como esse é uma forma de resistência. Seguimos!  

Imagem: Arte sobre foto de Bob Wolfenson/ Editora CRV

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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