Fiquei pensando: e, se tivesse educação, tinha bandido? Se tivesse comida, tinha bandido? E se tivesse uma perspectiva qualquer de futuro no ar, tinha bandido? Se houvesse um mínimo de alguma coisa levemente parecida com “felicidade”, “dignidade”, “justiça?”. Quem inventou essa violência desenfreada que tomou conta do País não foram os marginais – foram os poderosos”

O trecho da crônica Adeus, agosto. Alô, setembro! de Caio Fernando Abreu, de 1987, foi lido para um grande público no Sarau Voador dedicado ao escritor gaúcho, que completaria 70 anos no dia 12 de setembro. Morto precocemente após um diagnóstico de HIV positivo, em 1996, os textos de Caio F. sempre nos surpreendem pela atualidade. O trecho acima poderia ser uma bela resposta aos que falam, em pleno século 21, que bandido bom é bandido morto.

Na abertura do Sarau Voador dedicado a Caio, a atriz e amiga do escritor, Débora Finocchiaro, interpretou, com seu habitual talento, um trecho de Zero Grau de Libra, um texto muito conhecido do autor em que ele faz um série de pedidos a “isso que chamamos de Deus”. Pede um olho bom para o planeta, para a cidade de São Paulo e para quase todas as pessoas. Mas faz uma ressalva:

Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça.”

E finaliza:

Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.”

O sarau em homenagem a Caio F. foi apenas uma das minhas atividades realizadas em diferentes cidades brasileiras  relembrando a trajetória e a relevância do chamado escritor da paixão. Até o Doodle do Google lembrou a data do aniversário de Caio, como destaca essa matéria aqui.

Em Brasília, uma exposição foi montada no Museu Nacional da República, com visitação até o dia 27 de outubro. Para quem é do interior do Rio Grande do Sul, uma dica é conhecer a cidade natal de Caio Fernando Abreu. Em Santiago do Boqueirão, tem uma mostra em homenagem ao autor e até um restaurante onde seus escritos estão em destaque, como pode ser conferido nesse vídeo.

Por fim, é relevante destacar ser um ato de resistência à intolerância e à homofobia celebrar o trabalho de um autor como Caio Fernando Abreu. Por mais  que segmentos conservadores brasileiros tentem impor de forma arbitrária seus conceitos obtusos, a literatura libertária de Caio permanece para a posteridade, em contos com enredo homoafetivo (como Aqueles Dois, do livro Morangos Mofados, publicado em 1982, e lido no Sarau Voador que tive o privilégio de assistir).

E o que diria Caio F. desse avanço do conservadorismo em 2018? Certamente estaria com uma postura “enfrentativa”, termo que ele gostava muito de usar. E poderia nos dizer, como consolo:

Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.”

Foto: Acervo Paula Dip

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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