“O ponto de partida da greve foram as péssimas condições de vida […] As jornadas de trabalho excediam frequentemente as 12 horas diárias.”

O trecho acima, deliberadamente editado por mim, é do livro  1917-2017 – 100 Anos de Greve Geral – Passado ou Futuro, de Isaías Dalle. O texto refere-se a uma paralisação geral promovida na cidade de São Paulo como forma de repúdio ao tratamento dado a trabalhadores no início do século 20. Infelizmente, poderia perfeitamente ser usado como uma explicação para o chamado Breque dos Apps, a greve de entregadores que trabalham para aplicativos no Brasil de 2020, em plena pandemia. 

CONDIÇÕES PRECÁRIAS DE TRABALHO

Os grevistas do século 21 enfrentam jornadas de trabalho excessivas (não obrigatórias, porém a única forma de conseguir uma renda mínima para a sobrevivência, já que são vistos pelas empresas como “empreendedores” e não funcionários), rendimentos baixos, falta de direitos trabalhistas, previdenciários e de indenização em caso de acidentes. Além disso, precisam pagar do seu próprio bolso EPIs e álcool gel, fundamentais para a proteção contra o novo coronavírus.

São muitas as precariedades enfrentadas por uma categoria que nem mesmo é vista legalmente assim, já que muitas pessoas começaram a usar motos e bicicletas próprias como uma forma de ter alguma renda em meio à pandemia. 

REIVINDICAÇÕES JUSTAS?

Mesmo considerados essenciais para garantir que a maioria da população consiga manter o distanciamento social, a verdade é que os entregadores submetem-se à uma espécie de escravidão moderna, não tendo direito a refeições pagas pelas grandes corporações para as quais trabalham, por exemplo.

E se você aí ainda têm dúvidas se os empresários devem atender as reivindicações, vale lembrar novamente o movimento grevista de 1917, em São Paulo, que tinha como uma das principais exigências o fim do trabalho para menores de 14 anos em fábricas. Sim, naquele período crianças trabalhando era visto com naturalidade pelos patrões, que achavam que era tudo “mimimi” dos funcionários. Só não imaginavam que uma greve geral pararia a maior cidade da América Latina, mostrando a força dos trabalhadores.

O ESPÍRITO DA REVOLTA

Outro livro interessante a respeito do assunto é O Espírito da Revolta – A Greve Geral Anarquista de 1917. No trecho a seguir, a autora da obra, Christina Roquette Lopreato, avalia a importância das paralisações para os trabalhadores da época:

“A greve tinha valor educativo, de formação de uma consciência de classe autônoma, através da experiência da luta. A disposição […] de fazer greve em defesa de seus próprios interesses significava colocar em prática o princípio de ação direta”.

Impossível saber agora se o Breque dos Apps, realizado no dia 1 de julho de 2020 em diversas capitais brasileiras, será um movimento com relevância histórica como a greve geral de 1917. Mas o que nós, consumidores conscientes, podemos fazer é apoiar o movimento, que já tem nova data marcada: 12 de julho.

COMO APOIAR:
  • Divulgue a greve
  • Não faça pedidos
  • Avalie negativamente os apps por exploração e falta de condições sanitárias para os entregadores

Imagem: Reprodução/Facebook

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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