Mas é isso o que acontece. Uma vez encerrada a tragédia humana, cabe aos jornalistas banalizarem-na para convertê-la em entretenimento. Talvez porque todo aquele frenesi irracional tenha arrombado a porta da nossa casa e nenhum detalhe maledicente e distorcido dos jornais deixasse de chamar a minha atenção, acabei considerando a era McCarthy o início do triunfo da fofoca no pósguerra, a fofoca que se estabeleceu como o credo unificador da mais antiga república democrática do mundo. Na Fofoca Nós Acreditamos. Fofoca como o evangelho, a religião nacional. O macarthismo como o início da conversão não só da política séria mas de tudo o que é sério em entretenimento para distrair a massa. O macarthismo como a primeira florescência do vazio mental americano que agora está por toda parte.

O negócio de McCarthy, na verdade, nunca foi a perseguição de comunistas; se ninguém sabia, disse, ele sabia. A virtude dos julgamentos espetáculo da cruzada patriótica de McCarthy era simplesmente a sua forma teatralizada. Ter câmeras voltadas para aquilo apenas lhe conferia a falsa autenticidade da vida real. McCarthy compreendeu melhor do que qualquer político americano anterior a ele que as pessoas cujo trabalho era legislar podiam fazer muito mais em benefício de si mesmas se representassem um espetáculo; McCarthy compreendeu o valor de entretenimento da desgraça e aprendeu como alimentar as delícias da paranóia. Ele nos levou de volta a nossas origens, de volta ao século XVII e a nossos antepassados. Foi assim que o país começou: a desgraça moral como entretenimento público. McCarthy era um empresário dos espetáculos e, quanto mais desvairados os pontos de vista, tanto mais ofensivas as acusações, maior a desorientação e melhor a diversão para todo mundo. Os livres e corajosos de Joe McCarthy, este era o espetáculo em que meu irmão ia representar o papel mais importante da sua vida.”

Casei com um comunista – Phllip Roth

Vocês me desculpem a digressão pessoal que farei na coluna de hoje, mas é que o texto o de Philip Roth me inspirou um certo saudosismo, sabem?

Pra começar, posso dizer que bom mesmo era no meu tempo, em que o professor de história falava sobre Guerra Fria, socialismo e comunismo em sala de aula e ninguém acusava-o de ser doutrinador, estava só cumprindo o seu papel de ensinar o conteúdo aos alunos. Hoje em dia, esses moderninhos ficam querendo questionar o conhecimento e autoridade dos docentes, vocês acreditam nessa pouca vergonha?

São esses mesmos moderninhos, aliás, que resolveram que o correto é se atualizar pelo whatsapp em vez de ler um livro ou um jornal como o pessoal da velha guarda, como eu, ainda faz. Aonde esse mundo vai parar?

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No meu tempo, gente, militar ficava era na caserna, bem escondido depois da ditadura. Não tinha essas modernidades de se candidatar às eleições

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Aliás, lá na época da minha adolescência, no início da década de 90, não existia uma só pessoa que defendesse publicamente a volta do regime militar. Isso seria um vexame completo! As viúvas da ditadura eram enrustidas. Agora, tão aí, na maior pouca vergonha, relativizando tortura e dizendo que nem houve ditadura, o que só pode demonstrar que esse mundo tá perdido, mesmo.

Vocês vão me desculpar o tom nostálgico, mas é que “o meu tempo” era da redemocratização e os candidatos iam aos debates, não tinha essa de dar desculpa e não aparecer. Os debates depois eram manipulados pela edição da Globo e a esquerda podia falar mal da mídia, como deve ser. Agora é uma loucura, ficam dizendo que a Globo é comunista e a gente nem sabe mais quem deve defender. Essas modernidades não são mesmo pra mim!

Por fim, já que a Educação desse país tá de mal a pior e o governo federal só sabe nomear louco para esse ministério, só tenho uma coisa a dizer. Bom mesmo era no meu tempo de adolescência, em que Paulo Freire era secretário de Educação em São Paulo e não execrado publicamente como nesse século 21.

(Esse texto contém ironia mas é baseado em fatos reais. Tenhamos forças para suportar a atualidade)

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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