Os memes nas redes sociais que comparam as “malas” de Bolsonaro e Lula abrem um debate interessante sobre até onde vai o humor e começa a ofensa. Nós, que somos contrários ao bolsonarismo, não precisamos ter limites na hora de ridicularizar o presidente? Depende, eu diria.

Masculinidade tóxica e disforia

Porque claro que parece engraçado debochar dessa forma de um representante tão caricato da masculinidade frágil e tóxica. Mas a verdade é que fazer piada com o corpo alheio pode ser desrespeitoso com quem não é o alvo inicial do sarcasmo.

No caso em questão, a síndrome do pênis pequeno é um mal que atinge muito homens e não se refere exatamente ao tamanho em si da “mala”. Conforme especialistas, o que acontece é uma disforia em relação ao próprio corpo, que pode levar a sofrimento psíquico e perda da autoestima. 

Ou seja, não é uma piada.

Em busca de informações para esse texto, descobri que menos de 1% dos brasileiros que procuram atendimento médico para aumentar o pênis realmente tem algum problema. A Sociedade Brasileira de Urologia adverte que essa preocupação se deve a um padrão fantasioso dentro da masculinidade.

Além disso, considero no mínimo curioso que esquerdistas estivessem orgulhosos com a “potência” de Lula, reproduzindo um clichê da sociedade patriarcal e falocêntrica na qual vivemos.  

“Mas é só um meme. Relaxa, militante!”

Para quem pensa que o meme da “mala” de Bolsonaro é apenas humor e não deve ser problematizado, alerto que esse argumento é o mesmo de quem faz piadas racistas e homofóbicas. Aliás, sempre é bom lembrar que integrantes da esquerda são homofóbicos ao fazerem insinuações jocosas sobre a homossexualidade de um dos filhos de Bolsonaro.

Capacitismo também não é aceitável

Da mesma forma, quando chamamos Bolsonaro de retardado, estamos ofendendo as pessoas com deficiência. Sendo assim, não adianta xingar o ministro da Educação por ser contrário à educação inclusiva e depois fazer “piada” capacista em relação ao presidente. Se cobramos coerência dos adversários políticos, precisamos ter também.  

Sugestões de leitura

Seja homem, de JJ Bola, escritor congolês radicado em Londres – Um livro importante para quem quer saber mais sobre masculinidade tóxica. A obra aponta como a construção atual da masculinidade é ultrapassada, prejudicando homens e mulheres.

Capacitismo: o mito da capacidadede Victor Di Marco – O capacitismo ou preconceito em relação a pessoas com deficiência precisa ser mais debatido em nossa sociedade. Esse comportamento não passa apenas pela exclusão no acesso à educação mas também tem contornos mais sutis, como o uso de expressões ofensivas. É o que alerta o autor deste livro, a partir de suas vivências como pessoa com deficiência. 

Agora tudo é preconceito?

Para mim, a regra é clara: ofender o corpo, a capacidade mental, o gênero, a orientação sexual ou a raça de alguém não é piada. É preconceito. Então, para que possamos ridicularizar Bolsonaro, basta a crítica a suas inúmeras falhas no cargo que ocupa.  Sendo assim, na minha opinião, fazer piadas a respeito do suposto micropênis do presidente nos rebaixa ao nível dos que usavam adesivos da ex-presidente Dilma na entrada de tanques de gasolina dos carros. Podemos ser melhores do que isso, não acham?

Imagens: Ricardo Stuckert e redes sociais 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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